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Escritório de Advocacia - Dra. Clarice Beatriz da Costa Söhngen e Ingo Dietrich Söhngen

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sábado, 28 de junho de 2025

 


Linguagem que liberta - Justiça como Transformação Social


Imagem IA Wisk



Eu sou Maria de Jesus, uma catadora de palavras, assim como Carolina foi um dia. Ela catava papel para sobreviver; eu cato os restos do dia para transformar a vida em história. Nossos nomes se encontram, e nossas vidas também. Ambas mulheres da favela, mães, testemunhas de um tempo que teima em moer gente.

Nos meus cadernos, a favela não é só a mancha que a cidade grande tenta esconder. É a minha casa, o meu lugar, o chão onde a vida pulsa com uma força que poucos conhecem. Como Carolina descrevia seu Canindé, eu vejo a minha comunidade: um lugar de gente que sonha, que briga, que ama, que sobrevive. Vejo o carteiro Sansão, com os olhos cansados de quem anda o dia todo, mas que ainda sorri e acredita nas pessoas. Vejo a Dona Amélia, com sua vida cheia de curvas, espalhando filhos pelo mundo e buscando um amor que talvez nunca encontre. São as pequenas histórias que formam a nossa grande história.

Quando desço para o "asfalto", como dizemos, sinto o mesmo que Carolina sentia. É um outro mundo. As casas têm flores nas janelas, as crianças usam roupas que parecem nunca ter tocado o chão. É bonito de ver, mas é uma beleza que machuca, porque me lembra do abismo que nos separa. A cidade é um corpo doente, e as favelas, como ela dizia, são as feridas abertas que ninguém quer olhar.

E o moinho, aquele de que falava Darcy Ribeiro, não para. Ele moeu a esperança do meu filho Zé, que se arrisca numa moto todos os dias, invisível aos olhos de quem tem pressa. Moeu a alma da minha Rita, que saiu da prisão com uma marca que a sociedade não deixa apagar. E me mói um pouco a cada dia, a cada noite em que o medo me visita, a cada vez que o posto de saúde não tem o que eu preciso. A pandemia? Foi o moinho girando na velocidade máxima, levando quem a gente amava sem dó nem piedade.

Já passei dos setenta, cabelo branco, olho cansado, mas coração de mãe não envelhece nunca. Criei meus três filhos sozinha, cada um com sua luta, cada um com sua história marcada por essas ladeiras de barro e pelo medo que ronda a noite. Meu mais velho, o Zé, sempre foi trabalhador, entregador de moto desde novo. Quantas vezes não rezei baixinho, esperando ele voltar inteiro, desviando dos buracos e das balas perdidas. O Judiciário, esse palavrório difícil que ninguém entende, nunca chegou aqui para explicar nada. Só chega polícia, e às vezes nem para proteger, mas para assustar. Já vi vizinho ser levado, já vi menino bom morrer porque alguém achou que ele tinha cara de bandido. A gente aprende cedo que, para quem mora aqui, a justiça é palavra de doutor, não de mãe.

Minha filha, a Rita, foi presa por engano uma vez. Ficou meses longe do filho pequeno, sofrendo naquele presídio lotado, sem remédio, sem psicólogo, sem ninguém para ouvir. Dizem que tem lei para proteger mulher, mas na prática, o sofrimento é dobrado pra quem é mãe, preta e pobre. Quando saiu, só encontrou porta fechada: ninguém quer dar emprego para ex-presidiária, ninguém quer alugar casa. O Estado que devia cuidar, só castiga.

E o caçula, o Lucas, sonhava em ser engenheiro, mas acabou pegando a moto do irmão para tentar ganhar um troco. Eu tremo toda vez que ele sai, porque sei que o perigo não está só no crime, mas no trânsito. Esses meninos morrem todo dia porque ninguém vê eles na rua. Falam que tem que usar capacete com faixa que brilha, mas só brilha se bater luz. Já pensei: por que não deixam botar uma luzinha piscando no capacete? Dizem que não pode, que pode distrair motorista. Mas será que não distrai mais ver notícia de jovem morto todo dia? Se pode luz piscando em carro de polícia, ambulância, caminhão de socorro, por que não pode para proteger meu filho?

Aqui, a gente vive entre o medo da polícia e o medo da ausência dela. Morar na favela é saber que a lei é feita longe daqui, com palavras difíceis, e que a nossa dor quase nunca entra nos livros. Se não fosse a vizinhança se ajudar, a igreja, o mutirão, a universidade que às vezes sobe o morro para ouvir a gente, não tinha esperança. O direito, para nós, só chega quando alguém traduz, quando alguém escuta de verdade.

Mas, assim como Carolina, eu não escrevo só para reclamar. Escrevo para não enlouquecer. Escrevo para que meus filhos, meus netos, leiam um dia e saibam que a avó deles lutou. Que ela não se calou. Escrevo porque as palavras têm poder. Elas constroem pontes, elas curam, elas gritam.

Eu sigo rezando, cozinhando feijão, cuidando dos netos e esperando que um dia inventem uma lei que proteja de verdade, que escute as mães que enterram seus filhos e as mulheres que tentam recomeçar. Porque justiça, para mim, é quando meu filho volta pra casa, minha filha pode andar de cabeça erguida, e ninguém mais precisa ter medo de viver.

Minha voz é a de uma mulher da favela, mãe, sobrevivente. E ela não será silenciada. O moinho pode girar, a vida pode ser dura, mas enquanto eu tiver um lápis e um pedaço de papel, a nossa história será contada. Porque a gente resiste. A gente luta. A gente vive. E a gente escreve.

História fictícia criada pela conjunção de IAs – Claude 3.7 Sonnet, Gemini 2.5 Pro Tink e IA Perplexity

 INTERPRETAÇÃO

O texto de Maria de Jesus, uma mulher da favela que se reconhece na trajetória de Carolina Maria de Jesus, expressa uma narrativa sobre a vida na periferia, marcada pela luta, pela dor e pela resistência. Não obstante o texto seja fictício e retrate uma mulher – avó - comum de periferia ou de favela, ele retrata um resumo de depoimentos de mulheres pobres e negras. 

A partir da entrevista de Clarice Beatriz da Costa Söhngen, é possível fazer um arrazoado que conecta as experiências vividas por Maria com as reflexões críticas sobre linguagem, justiça, violência estrutural e o papel transformador da literatura e do direito.

Prof. Dra. Clarice Beatriz da Costa Söhngen

Nota: A entrevista foi concedida ao  Jornal Estado de Direito fundado pela advogada, jornalista e ativista, Carmela Grüne, em 15 de novembro de 2005, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Teve durante dez anos, periodicidade bimestral, atingindo a marca de 50 mil exemplares, por publicação, distribuídos gratuitamente em vinte Estado brasileiros. Promove ideias e ideais de cidadania e dos direitos humanos, alinhando teoria e prática, Direito no cotidiano, com a participação de juristas, filósofos , artistas, educadores, sociólogos, entre outros.

Link: https://estadodedireito.com.br/entrevista-linguagem-que-liberta-clarice-beatriz-da-costa-sohngen-sobre-hermeneutica-critica-e-justica-antirracista/

Hermenêutica Crítica e Linguagem Inclusiva

Maria de Jesus denuncia a exclusão e o distanciamento que a linguagem oficial do Judiciário provoca nas pessoas das favelas, que são diretamente afetadas pelas decisões judiciais, mas não têm acesso claro ao seu significado. Clarice Beatriz destaca que a linguagem hermética no sistema jurídico brasileiro funciona como um mecanismo de exclusão cognitiva e simbólica, mantendo relações assimétricas de poder entre quem produz o conhecimento jurídico e quem sofre suas consequências(1). Assim, o relato de Maria reforça a necessidade de uma hermenêutica crítica que traduza o direito para a realidade concreta das pessoas, tornando-o acessível e capaz de promover a emancipação social.

Violência Estrutural e Racismo Institucional

Maria fala do “moinho” que mói a esperança de seus filhos, da violência policial, do encarceramento da filha Rita e da ausência do Estado em prover saúde e segurança. Clarice Beatriz evidencia que a violência estatal nas periferias é seletiva, atingindo principalmente pessoas negras e pobres, e que o sistema de justiça frequentemente legitima essa violência e falha em responsabilizar agentes estatais abusivos(1). A precariedade no atendimento à saúde mental das mulheres presas, tema abordado por Maria na história da Rita, é também uma grave violação de direitos humanos, agravada pelas interseccionalidades de raça, gênero e classe que marcam a população carcerária feminina(1).

O Papel Transformador da Literatura e da Extensão Universitária

Maria de Jesus escreve para resistir, para dar voz à sua comunidade e para que as futuras gerações conheçam sua luta. Clarice Beatriz aponta que a literatura, especialmente a produzida por vozes marginalizadas como Carolina Maria de Jesus, é um instrumento pedagógico e político capaz de humanizar o direito e revelar o “não dito” das decisões judiciais(1). A literatura rompe com o epistemicídio negro, trazendo à tona experiências de justiça e injustiça que o direito formal não consegue abarcar. Além disso, projetos de extensão universitária, como o COSMOS[i] criado pela mestre Erlaine Alves e coordenado por Clarice, atuam como pontes entre territórios periféricos e o sistema de justiça, produzindo conhecimento situado e práticas jurídicas inovadoras que podem transformar realidades como a narrada por Maria(1).

Justiça como Transformação Social

Maria expressa que justiça, para ela, é quando seus filhos podem viver sem medo, quando sua filha pode andar de cabeça erguida e quando o Estado realmente protege e acolhe. Clarice Beatriz reforça que o direito deve ser visto não apenas como um instrumento de resolução de conflitos, mas como uma ferramenta de transformação social, exigindo compromisso ético com a alteridade e a emancipação(1). A luta de Maria de Jesus, assim, é também um chamado para que o sistema de justiça incorpore práticas antirracistas, escute as vozes das periferias e reconheça as especificidades de gênero, raça e classe que marcam a vida das mulheres e homens da favela.

Portanto, o texto de Maria de Jesus, iluminado pela entrevista de Clarice Beatriz, revela a urgência de uma hermenêutica crítica e de um direito que escute e traduza as vozes das margens, que combata a violência estrutural e que valorize a literatura e a extensão universitária como instrumentos de resistência e transformação social(1). A narrativa de Maria é um testemunho da dor, da luta e da esperança que atravessam as favelas brasileiras e que precisam ser reconhecidas e valorizadas no campo jurídico e social.

Fontes de pesquisa:

  1. https://estadodedireito.com.br/entrevista-linguagem-que-liberta-clarice-beatriz-da-costa-sohngen-sobre-hermeneutica-critica-e-justica-antirracista/
  2. https://www.redalyc.org/journal/3509/350970646006/html/
  3. https://periodicos.unb.br/index.php/insurgencia/article/view/38442?articlesBySimilarityPage=8
  4. https://scholar.google.com.br/citations?user=KwuYMeoAAAAJ
  5. https://biblioteca.mpsp.mp.br/cgi-bin/wxis.exe?IsisScript=phl82%2F003.xis&bool=exp&opc=decorado&exp=GENOCIDIO&tmp=D%3A%2FWebSites%2FPHL%2Fphl82%2Ftmp%2FTMP2.%24%24%24

Resumo da entrevista dada ao Jornal Estado de Direito (I)

 

Na entrevista, Clarice Beatriz da Costa Söhngen articula uma crítica contundente ao sistema de justiça brasileiro, argumentando que a linguagem jurídica hermética funciona como um mecanismo de exclusão que perpetua desigualdades e reforça estruturas de poder. Essa exclusão manifesta-se de forma mais grave na seletividade racial do sistema penal, onde a violência estatal é normalizada e a prisão preventiva é aplicada desproporcionalmente contra pessoas negras e pobres. Como caminho para a transformação, Söhngen defende a adoção de uma hermenêutica crítica, a integração de saberes interdisciplinares como a literatura para humanizar o direito e revelar vieses ocultos, e o fortalecimento da extensão universitária como ponte entre a academia e as realidades das comunidades vulneráveis.

  • ·        A linguagem jurídica hermética serve como um instrumento de poder que gera exclusão cognitiva e simbólica, afastando o direito daqueles que são mais afetados por ele.
  • ·        A violência estatal, como no caso Genivaldo, é tolerada pelo sistema devido a uma seletividade punitiva estrutural baseada em critérios de raça, classe e território.
  • ·        As políticas de segurança pública nas periferias fracassam por priorizarem o policiamento ostensivo em detrimento de investimentos em políticas sociais e da participação comunitária.
  • ·        A precariedade no atendimento à saúde mental de mulheres encarceradas é uma grave violação de direitos humanos que intensifica o sofrimento, especialmente de mulheres negras e pobres.
  • ·        As audiências de custódia têm sua eficácia limitada, pois a prisão preventiva continua sendo usada como regra, de forma seletiva e racializada, contra a população periférica.
  • ·        O Judiciário revela uma contradição ao avançar em pautas como as cotas, mas resistir a reconhecer e combater o racismo estrutural em suas próprias decisões e práticas penais.
  • ·        A interface entre Direito e Literatura é uma ferramenta pedagógica poderosa para humanizar a prática jurídica, desconstruir categorias neutras e combater o epistemicídio de vozes marginalizadas.
  • ·        Projetos de extensão universitária, como o COSMOS(II), são essenciais para criar conhecimento jurídico situado e desenvolver práticas inovadoras que respondam às injustiças vividas pelas comunidades.

Questões Relacionadas

·        1. De que maneiras concretas o ensino jurídico pode ser reestruturado para formar profissionais mais conscientes das desigualdades estruturais?

 

Com base na entrevista, a reestruturação do ensino jurídico para criar maior consciência sobre as desigualdades estruturais deve ocorrer em três frentes principais:

 

  • ·        Interdisciplinaridade e Hermenêutica Crítica:  Clarice Söhngen defende a integração de outros campos do saber, como a literatura, a filosofia e a sociologia, ao estudo do Direito. O uso da literatura, por exemplo, permite "desconstruir as falsas neutralidades" e humanizar a prática jurídica, revelando os vieses e preconceitos embutidos na linguagem e nas categorias legais. A adoção de uma "hermenêutica crítica" ensinaria os estudantes a interpretar a lei não como um texto neutro, mas como um produto social que pode tanto legitimar quanto combater injustiças.
  • ·        Valorização da Extensão Universitária:  A entrevista destaca a importância fundamental dos projetos de extensão, como o COSMOS, que ela coordena e que foi criada pela Mestre em Direito Penal  Erlaine Alves dos Santos. Essas iniciativas colocam os estudantes em contato direto com as realidades das comunidades vulneráveis. Essa vivência prática funciona como um "letramento sobre a realidade social", permitindo que os futuros profissionais compreendam as verdadeiras implicações do sistema de justiça na vida das pessoas e desenvolvam soluções jurídicas que respondam às demandas concretas da sociedade, em vez de apenas reproduzir teorias abstratas.
  • ·        Letramento Racial e de Gênero:  É crucial incluir o letramento racial e de gênero como componentes centrais da formação jurídica. Isso significa estudar como o racismo e o machismo estruturam o sistema de justiça, influenciando desde a abordagem policial até a decisão judicial. A análise de obras como as de Lélia Gonzalez ou Carolina Maria de Jesus, mencionadas na entrevista, ajuda a expor o "epistemicídio" – o apagamento de saberes de grupos marginalizados – e a formar juristas capazes de reconhecer e combater o racismo institucional.

2. Além da formação antirracista, que outros mecanismos de controle poderiam ser implementados no Judiciário para reduzir o viés racial na aplicação da lei penal?

Embora a formação seja um passo importante, Clarice Söhngen sugere que são necessários mecanismos de controle mais robustos para conter o viés racial. A partir de suas críticas, podemos inferir os seguintes mecanismos:

  •  ·        Controle sobre a Prisão Preventiva: A entrevista critica duramente o uso excessivo e seletivo da prisão preventiva, que, segundo ela, virou a regra em vez da exceção, especialmente para a população negra e periférica. Um mecanismo de controle seria a criação de critérios mais rígidos e fiscalização externa rigorosa sobre as decisões que decretam a prisão antes do julgamento, garantindo que ela seja aplicada apenas em casos de extrema necessidade e não como uma antecipação de pena baseada em preconceitos.
  • ·        Transparência e Análise de Dados Judiciais: A implementação de sistemas que coletem e analisem dados sobre as decisões judiciais, com recortes de raça, classe e gênero, poderia expor padrões de seletividade penal. Tornar essas análises públicas criaria uma forma de controle social e institucional sobre a atividade dos juízes, forçando o sistema a confrontar suas próprias disparidades.
  • ·        Fortalecimento da Defensoria Pública: Uma Defensoria Pública bem estruturada e com autonomia é um mecanismo de controle essencial. Ao garantir uma defesa técnica qualificada para a população vulnerável, ela pode contestar de forma mais eficaz as narrativas policiais e as acusações frágeis que frequentemente vitimam pessoas negras, atuando como um contrapeso ao viés acusatório do Ministério Público e do próprio Judiciário.

3. Como as comunidades periféricas podem ser efetivamente empoderadas para participar da formulação de políticas de segurança pública que atendam às suas necessidades reais?

 

A entrevista aponta para um modelo de segurança pública que substitua a lógica do confronto pela da participação, sugerindo as seguintes estratégias de empoderamento:

 

  • ·        Inversão de Prioridades:  O empoderamento começa quando o Estado muda o foco do policiamento ostensivo e da "guerra às drogas" para o investimento maciço em políticas sociais dentro das periferias: saúde, educação, cultura, moradia e trabalho. Segundo Clarice, a segurança pública só pode ser construída com direitos garantidos, e não com repressão.
  • ·        Criação de Espaços de Diálogo:  É fundamental criar canais institucionais e permanentes de diálogo entre os moradores das comunidades, as lideranças locais e os gestores da segurança pública. A formulação de políticas deve partir da escuta das necessidades e das soluções propostas por quem vive o problema diariamente. Isso significa abandonar o modelo em que as decisões são tomadas de cima para baixo, em gabinetes distantes da realidade periférica.
  • ·        Produção de Conhecimento Situado: O empoderamento passa também pelo conhecimento. Iniciativas como os projetos de extensão universitária mencionados podem atuar como pontes, ajudando a sistematizar as demandas das comunidades e a "produzir conhecimento jurídico a partir daquele chão". Ao transformar suas vivências em dados e narrativas organizadas, as comunidades ganham mais força para disputar a pauta da segurança pública e exigir políticas que, de fato, promovam a paz e a cidadania, em vez de mais violência.





(I)              https://estadodedireito.com.br/entrevista-linguagem-que-liberta-clarice-beatriz-da-costa-sohngen-sobre-hermeneutica-critica-e-justica-antirracista/

(II)          “Cosmos: rede de acesso à justiça e extensão universitária"  é uma plataforma defendida na Dissertação de Mestrado da Mestra em Direito Penal  Erlaine Alves dos Santos denominada  “TEORIA DA MUDANÇA APLICADA AO DIREITO DE ACESSO À JUSTIÇA: DESAFIOS E POSSIBILIDADES DE UMA REDE EXTENSIONISTA ON-LINE FOCADA EM ACESSO À JUSTIÇA PENAL NO RIO GRANDE DO SUL”(III) , orientada pela Profa. Dra. Clarice Beatriz da Costa Sohngen, e visa unir e impulsionar ações realizadas por projetos de extensão universitária, especialmente os pautados no Direito de Acesso à Justiça.

A proposta nasceu com o objetivo de verificar e enfrentar desafios de projetos focados no direito de Acesso à Justiça Penal a pessoas vulnerabilizadas socioeconomicamente, por meio da cooperação entre iniciativas fomentadas por diferentes universidades.

Entretanto, durante a realização da pesquisa, a metodologia também se apresentou com o potencial de auxiliar no processo de curricularização da extensão universitária, conforme prevê o Ministério da Educação desde o ano de 2018, pois as estratégias se mostraram escaláveis para outras áreas do Direito e para outros cursos.

Atualmente, a plataforma encontra-se em fase de desenvolvimento por meio de parceria com a AGES  - Agência Experimental de Engenharia de Software da PUCRS. A Ages  é um ambiente prático de ensino e aprendizagem vinculada ao Curso de Bacharelado em Engenharia de Software da Escola Politécnica da PUCRS.

 

(III)            https://tede2.pucrs.br/tede2/bitstream/tede/11438/4/ERLANE_ALVES_SANTOS_DISS.pdf

 




terça-feira, 24 de junho de 2025

 Mas como eu devo me apressar?

Criação Ia Wish


O ano era 1979. Viajar de avião ainda carregava um certo glamour. A jornada começou no Brasil, sob o logotipo da estrela da Varig. O destino final era Zurique  na Suíça. O imponente 707 da Varig – já ultrapassado em sua vida útil, com sua pintura clássica, já anunciava o primeiro problema do dia no painel de voos, com aquele som característico de letras e números virando: "ATRASADO". A espera no saguão, com passageiros lendo jornais e revistas, parecia interminável.

Finalmente a bordo, após o longo voo transatlântico, Rio-Madrid-Zurique -  o 707  pousou em Zurique, na Suíça. O ar frio dos Alpes era um choque depois do calor brasileiro. A pressa era palpável. Um grupo de passageiros, corria pelos corredores do aeroporto para pegar o voo de conexão da Lufthansa para Munique.

Mas o destino, naquele dia, tinha um senso de humor irônico. O Boeing 727 da Lufthansa,  estava ali, parado na pista. A razão? Aguardava justamente os passageiros atrasados do voo da Varig. A correria tinha sido em vão; o efeito dominó das viagens aéreas significava que eles agora estavam presos a um segundo atraso.

Já acomodados nos assentos de tecido  tão típicos da década, a tripulação da Lufthansa começou a servir café logo após o início do voo.  Foi nesse momento que uma senhora idosa, de cabelos brancos e postura impecável, externou sua preocupação com um olhar cansado para a aeromoça, que vestia um elegante tailleur, com casaco e saia, em tom azul marinho.

A aeromoça, com um sorriso treinado e a eficiência alemã em seu DNA, ofereceu uma resposta padrão, claramente tirada do manual:

— Ach, beeilen Sie sich nicht. Sie kommen noch rechtzeitig hin. (Ah, não se apresse. A senhora chegará a tempo.)

Um silêncio pesado pairou no ar. A frase, pensada para ser tranquilizadora, soou completamente absurda para alguém que já estava sentado, com o cinto afivelado, em um avião em voo.

A senhora então virou-se lentamente para sua companheira de viagem ao lado e, em um tom de voz que misturava resignação e uma lógica cortante, perguntou:

— Ja, wie soll ich mich denn beeilen? (Sim, mas como eu deveria me apressar?)

A pergunta flutuou pela cabine, um resumo perfeito da impotência e do absurdo da situação. Naquele momento, dentro de um Boeing 727 em 1979, a sabedoria de uma passageira expôs, com uma simplicidade brilhante, o vazio de uma resposta automática.

Correção e desenvolvimento Gemini 2.5 Pro Think.

Para saber mais:https://pt.wikipedia.org/wiki/Varig; https://pt.wikipedia.org/wiki/Lufthansa; https://pt.wikipedia.org/wiki/Boeing_727


"Mas como eu devo me apressar?" por Ingo Dietrich Söhngen © 2025.

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional (CC BY-NC 4.0).

Disponível em: https://sohngen.blogspot.com/2025/06/mas-como-eu-devo-me-apressar-criacao-ia.html

Para ver uma cópia desta licença, visite: https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/deed.pt_BR

Licença CC BY-NC 4.0  Esta licença permite compartilhar (copiar e redistribuir) e adaptar (remixar, transformar e criar)"Mas como eu devo me apressar?"  em qualquer formato, desde que seja dado crédito adequado ao autor original com link para a fonte original e para a licença, indicando alterações feitas, sendo expressamente proibido o uso para fins comerciais. Não se pode adicionar restrições além das previstas, elementos em domínio público não são afetados, e o descumprimento cancela automaticamente os direitos concedidos, ressaltando-se que a licença pode não contemplar todas as permissões necessárias para certos usos.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

 


O Salão Paroquial – E uma aula eletrônica

Imagem IA Wisk 

Minhas amigas, meus amigos deste nosso salão paroquial eletrônico.

Saúdo a todos com a alegria de quem se reúne em comunidade para partilhar o pão do pensamento. Não tenho a genialidade dos grandes escritores que nos ajudaram a decifrar o Brasil, mas considerem-me um amigo eletrônico deles, um leitor dedicado que, com a licença que a tecnologia me permite, tenta tecer os fios de suas ideias em uma única tapeçaria, para que possamos olhar juntos para o nosso retrato.

E tudo começa com uma história. Uma cena tão pequena, tão corriqueira, que poderia se passar em qualquer rua de Porto Alegre, de Salvador, ou aqui mesmo, na tela em que nos encontramos.

Imaginem a cena, por favor. 

O sol de fim de tarde, dourando as folhas das mangueiras. 

Um pai, Marcos, anda com seu menino, o pequeno Leo. A mão grande a proteger a mãozinha. Do outro lado, uma avó, de cabelos brancos e postura digna, conduz sua neta, Sofia. 

As duas crianças, como imãs de pura alegria, se encontram. E brincam. Ah... como brincam. Correm, giram, e suas risadas são a única linguagem de que precisam. Não há cor, não há história, há apenas aquele instante sagrado de pura humanidade.

O pai, Marcos, observa com o coração aquecido. Aquilo é a prova de que a bondade é o estado natural das coisas. Mas então, a avó, com uma voz que não se altera, chama a neta: "Vem, Sofia. Deixa aí o negrinho e vamos."

"Deixa aí o negrinho."

Silêncio. A palavra paira no ar, pesada, e constrói um muro invisível, mas terrivelmente sólido, entre as duas crianças.

Para entender a profundidade abissal contida nesta frase, precisamos ter a coragem de usar a teoria como uma lamparina. 

Comecemos pela fachada da nossa casa, a ideia com a qual nos apresentamos ao mundo:

a Democracia Racial.

Um sociólogo de nome Gilberto Freyre nos deu este retrato sedutor, o de que nossa mistura nos tornou imunes ao preconceito. É uma mentira confortável, a foto de Leo e Sofia brincando que usamos como nosso cartão de visitas.

Mas o que acontece quando uma palavra racha a pintura dessa fachada? Precisamos ir ao porão. É lá que encontramos a máquina que move esta casa. 


Imagem IA  Wisk 

 Os estudiosos a chamam de   Racismo Estrutural.

O que é isso? Imaginem que não se trata de pessoas más. A avó da história não precisa ser um monstro; ela é apenas uma peça. O racismo estrutural é o próprio sistema, o conjunto de práticas, hábitos, pensamentos e instituições que a nossa sociedade herdou da escravidão e que continua, mesmo sem a intenção consciente de cada indivíduo, a colocar pessoas negras em desvantagem e pessoas brancas em vantagem.

A Lei Áurea libertou os corpos, mas não demoliu esta estrutura. Ela sobreviveu na nossa linguagem, na nossa economia, na nossa forma de ver o mundo.

E para dar um nome, uma imagem a esta máquina, ninguém foi mais preciso que outro grande intérprete do Brasil, Darcy Ribeiro. Ele nos disse que esta estrutura foi forjada no que ele chamou, com uma imagem terrível e precisa, de um

 

Imagem IA Wisk 


"Moinho de Gastar Gente".

 Pensem nisso. Um moinho. Uma engrenagem implacável projetada para moer as vidas dos povos indígenas e dos negros africanos, transformando seu sangue em riqueza.

A fala da avó — "Deixa  o negrinho" — é o eco da lógica deste moinho. É o ato de classificar uma criança não como um ser humano pleno, mas como combustível, uma peça a ser gasta e descartada.

Apesar de tudo, desse moinho de crueldade, nasceu algo novo: o "Povo Novo" que Darcy tanto celebrou. Nós. Um povo mestiço, contraditório, sofrido e criativo. Somos, ao mesmo tempo, a cria e a negação do moinho.

E como essa herança brutal convive com a nossa aparência de nação moderna? É aqui que o pensamento de Norbert Elias sobre o 

Processo Civilizatório nos oferece a chave.

O processo civilizatório, na Europa, foi o lento aprendizado do autocontrole, da polidez, da transformação da violência externa em vergonha interna. 

No Brasil, esse processo se deu de forma incompleta, rachada. Nós importamos as regras da civilidade, mas não desligamos o moinho.

O resultado é a nossa fratura. A nossa civilização é uma casca fina que tenta encobrir o barulho das engrenagens.

A avó é a personificação disso. Em público, uma senhora civilizada. Mas de sua boca sai, sem filtro, a lógica pura do moinho.

Ela está, naquele instante, sabotando o processo civilizatório, ensinando à neta uma lição anticivilizatória: a de que existem pessoas que não são pessoas por inteiro.

Ela está usando a violência simbólica da palavra para manter a estrutura de pé, exercendo sua posição de branquitude — a posição de quem se vê como a norma e pode julgar o outro — para descartar uma criança.

Mas talvez, para alguns, isso ainda soe teórico, distante. "Onde", vocês podem perguntar, "estão as provas concretas desta máquina em funcionamento?". E vocês teriam razão em perguntar.

A verdade, meus caros, é que este moinho não tem uma única planta, uma única face. Ele se adapta ao terreno. Permitam-me, então, que os convide para uma breve e dolorosa viagem por este nosso continente, para ver como as engrenagens deste racismo estrutural foram forjadas em diferentes fornalhas.

Fonte: https://en.m.wikipedia.org/wiki/File:Monumento_%C3%A0s_Bandeiras_01.jpg


Nossa primeira parada é em São Paulo. A locomotiva do país, dizem. Lá, a elite se orgulha de suas famílias originárias, dos quatrocentões, e romantiza a figura do Bandeirante como um herói desbravador.

Mas o que foi o bandeirantismo senão a primeira e mais brutal manifestação do moinho? Uma máquina de caçar, escravizar e exterminar povos indígenas, os donos originais desta terra.

Mais tarde, quando o café se tornou o nosso "ouro negro", a riqueza que ergueu os palacetes da Avenida Paulista brotou do trabalho escravizado de milhões de africanos. O fim da escravidão não mudou a lógica.

A elite paulista, então, patrocinou a vinda de imigrantes europeus, num projeto claro, documentado, de "branquear" a nação, de substituir o trabalhador negro, agora liberto, por um europeu considerado mais "apto" ao trabalho. O racismo ali não é apenas um hábito; ele foi um projeto de estado, a argamassa que uniu a riqueza e o poder.

 

Imagem https://pixabay.com/pt/photos/drone-foto-centro-blumenau-4950012/


Agora, viajemos para o Sul, para a nossa vizinha Santa Catarina. Lá, o quadro muda. Em muitas de suas cidades, vemos o legado de famílias alemãs trabalhadoras, que construíram uma prosperidade notável.

Devemos admirá-los por isso.

Mas não podemos ser ingênuos. A imigração alemã, especialmente no final do século XIX e início do século XX, foi incentivada para criar "quistos" brancos no sul do Brasil, para "civilizar" a terra e garantir a fronteira.

E quando chegamos aos anos 30, no período de ascensão do nazismo na Europa, essas ideias de pureza racial não passaram incólumes por aqui. Células nazistas floresceram em Santa Catarina. A ideologia da superioridade ariana, a crença na necessidade de manter o "sangue puro", a desconfiança e o desprezo por outros povos, especialmente negros e indígenas... isso não se desfaz com o fim da guerra.

Essa mentalidade se infiltra na cultura, se torna um preconceito velado, um orgulho que se baseia na exclusão, um desejo de se manter "à parte" do resto do Brasil mestiço. O racismo ali não nasceu da relação senhor-escravo, mas de uma ideologia de pureza importada e zelosamente cultivada.


 

Imagem https://commons.wikimedia.org/wiki/File:La%C3%A7ador.jpg

E, sou forçado a olhar para dentro da casa de um dos meus amigos literários, para o Rio Grande do Sul de Erico Verissimo. Ele tentou, como sabem, contar a história deste "Continente de São Pedro" em sua trilogia, O Tempo e o Vento.

E olhando para aquela obra, vemos o moinho funcionando a pleno vapor. Nós nos orgulhamos da nossa bravura, da figura do gaúcho livre. Mas onde estava a liberdade para os povos Charrua e Minuano, caçados e exterminados para que as estâncias pudessem se espalhar?

E o que movia a economia do estado? O charque. As grandes charqueadas de Pelotas, que geraram fortunas imensas, eram um dos mais cruéis centros do "moinho de gastar gente", operando com mão de obra escravizada em condições terríveis. Na saga dos Cambará e dos Amaral, o drama é de brancos.

Os personagens negros e indígenas são figuras secundárias, serviçais, cuja humanidade raramente ocupa o centro do palco. Essa é a mais profunda confissão do racismo estrutural: a incapacidade de ver o outro como personagem principal da sua própria história.

Betti Faria em Tieta - Novela da Rede Globo - Créditos ClicRBS 


 Mas a nossa viagem não estaria completa sem uma última parada. Precisamos ir ao coração mestiço desta nação: a Bahia. E para nos guiar, ninguém melhor que Jorge Amado.

Se há um lugar onde o mito da Democracia Racial parece real, é na Bahia. Mas o que Jorge nos mostra é que esta é a mais elaborada das fachadas. O moinho na Bahia mói, sobretudo, reputações e liberdades em nome de uma moralidade hipócrita.

Pensem em "Tieta do Agreste". Tieta é expulsa pela moral sufocante, mas é recebida de braços abertos quando retorna com dinheiro.

O pecado nunca foi a falta de moral; foi a falta de poder.

E em "Dona Flor e Seus Dois Maridos", temos o retrato do Brasil. De um lado, Teodoro, o farmacêutico ordeiro, a encarnação do processo civilizatório. Do outro, Vadinho, a desordem, a paixão, a vida pulsante do povo.

A elite baiana é como Dona Flor: quer a segurança respeitável de Teodoro, mas consome a paixão de Vadinho como um tempero exótico, mantendo-o em seu devido lugar — na rua, na festa, longe do poder. O racismo ali é o do paternalismo, do afeto que subjuga.

Assim, quando aquela avó, em uma calçada qualquer do Brasil, diz "Deixa aí o negrinho", ela não está apenas sendo grosseira. Ela é a herdeira inconsciente de tudo isso. Em sua fala ecoa a arrogância do barão do café, a ideologia de pureza do colono, a violência normalizada do estancieiro e, talvez acima de tudo, a hipocrisia moral da elite que, como a de Jorge Amado, aprendeu a amar os frutos do povo, mas continua a desprezar a árvore.

A nossa tarefa, portanto, é monumental. É preciso não apenas desligar o moinho, mas também desenterrar e confrontar as suas muitas fundações regionais. É um exorcismo histórico que precisamos, com coragem e humildade, começar a fazer neste nosso salão paroquial eletrônico.

Muito obrigado.

Redação  Gemini 2.5 Pro Think

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Para saber mais: 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa-Grande_%26_Senzala

https://pt.wikipedia.org/wiki/Darcy_Ribeiro

https://pt.wikipedia.org/wiki/Norbert_Elias

https://pt.wikipedia.org/wiki/Racismo_estrutural

https://pt.wikipedia.org/wiki/Bandeirantes

https://pt.wikipedia.org/wiki/Imigra%C3%A7%C3%A3o_alem%C3%A3_em_Santa_Catarina

https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89rico_Ver%C3%ADssimo

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_Amado