A QUESTÃO TEOLÓGICO-ECONÔMICA DE SANTO ANTÔNIO DO VALE
Uma aula em forma de comédia filosófica
PERSONAGENS
Padre Anselmo - 62 anos, barriga avantajada de polenta e vinho colonial, mãos grandes de quem já trabalhou na roça. Conversa com o crucifixo da igrejinha como se fosse seu cunhado.
Vanderlei "Vandão" Becker - 58 anos, prefeito do PT há três mandatos (com um intervalo), bigode espesso, voz tonitruante. Ex-sindicalista metalúrgico. Também tem barriga de polenta e vinho colonial.
Cristo do Crucifixo - Fala apenas com Padre Anselmo. Tem senso de humor.
Dona Iracema - 68 anos, professora aposentada, moderadora implacável.
Seu Giacomo - 83 anos, sobrevivente de tudo, sabedoria de aldeia.
Local: Santo Antônio do Vale - 3.847 habitantes, serra gaúcha, entre Caxias do Sul e Bento Gonçalves. Uma igreja, uma prefeitura, três cantinas, dois mercadinhos, uma cooperativa, salão da comunidade e muita uva.
ATO I: O PROBLEMA DO COSMO E DO CHIMARRÃO
[Igreja de Santo Antônio, 6h da manhã. Padre Anselmo entra arrastando os pés, acende as velas, prepara um chimarrão. Olha para o Cristo no crucifixo]
PADRE ANSELMO: Bom dia, Senhor. Aquele comunista do Vandão passou ontem na rádio comunitária dizendo que a Igreja é "ópio do povo". Ópio! Eu, que acordo às cinco da matina para visitar a dona Olinda que está com câncer!
CRISTO: Anselmo, tu tomou o chimarrão dela antes ou depois da visita?
PADRE ANSELMO: (defensivo) Ela insistiu! E que tem? A caridade não proíbe chimarrão!
CRISTO: Claro que não. Mas me diz uma coisa: o Vandão também não foi lá ontem? Vi ele saindo quando tu chegava.
PADRE ANSELMO: (resmungando) Foi. Levou uma cesta básica da prefeitura.
CRISTO: E isso te incomoda por quê?
PADRE ANSELMO: Porque ele faz isso para ganhar voto! Eu faço por amor cristão!
CRISTO: (irônico) Claro. E aquela lista de frequência da missa que tu preenche, é por quê? Controle de estoque de hóstias?
PADRE ANSELMO: Senhor, com todo respeito, isso não vem ao caso. A questão é: por que o Vandão tem que ser ateu? Por que ele não pode aceitar Vossa infinita misericórdia?
CRISTO: Anselmo, tu já parou para pensar que talvez, do ponto de vista do universo infinito, não faça muita diferença se o Vandão acredita em mim ou numa teoria econômica alemã?
PADRE ANSELMO: (escandalizado) Como assim não faz diferença?! Senhor, o senhor morreu na cruz pela salvação dele!
CRISTO: Eu sei. Eu tava lá. Mas responde: quando tu olha pro céu à noite, tu consegue entender o infinito?
PADRE ANSELMO: (coçando a cabeça) Bom... não. Me dá tontura.
CRISTO: Pois é. Tu não entende o universo físico, mas tem certeza absoluta sobre meus planos para o Vandão Becker?
PADRE ANSELMO: (silêncio constrangido) É... colocando assim...
CRISTO: E me diz outra coisa: o Vandão, com todo aquele papo de luta de classes, não faz basicamente o que eu pedi nos Evangelhos? Cuidar dos pobres, distribuir riqueza, combater os poderosos?
PADRE ANSELMO: Mas ele não faz em Vosso nome!
CRISTO: E eu sou tão vaidoso assim? Preciso de crédito? Anselmo, quando tu ajudou o Zeca a reformar o rancho sem ele saber que foi tu, tu não se sentiu melhor ainda?
PADRE ANSELMO: (pensativo) Bah, é verdade...
[Bate palmas no portão da igreja]
VOZ DE VANDÃO: Ô, padre! Tá aí?
ATO II: A ALIANÇA IMPOSSÍVEL
[Padre Anselmo sai da igreja. Vandão está no portão, com uma pasta debaixo do braço]
VANDÃO: Bom dia, padre.
PADRE ANSELMO: (seco) Bom dia, Vanderlei. Que te traz por aqui tão cedo? Veio me converter ao materialismo dialético?
VANDÃO: (sorrindo) Não, vim te pedir um favor. Preciso da tua ajuda.
PADRE ANSELMO: (desconfiado) Minha ajuda? Tu, que passou na rádio me chamando de vendedor de ópio?
VANDÃO: Eu não te chamei de vendedor! Eu citei o Marx! E ouvi dizer que tu me chamou de "filho do demo" no sermão de domingo.
PADRE ANSELMO: (corando) Eu disse "aqueles que negam a Deus". Não citei nomes.
VANDÃO: Padre, a igreja inteira olhou pra mim.
PADRE ANSELMO: (mudando de assunto) Que favor?
VANDÃO: A família Bonatto. Tu sabe que o Ademir quebrou a perna na colheita. Não pode trabalhar por três meses. Eu consegui uma cesta básica da prefeitura e meio salário do sindicato, mas não dá. Eles vão perder a terra pro banco.
PADRE ANSELMO: (imediatamente sério) Quanto falta?
VANDÃO: Uns três mil reais. Pensei que a gente podia fazer uma campanha junto. Eu mobilizo o sindicato, tu mobiliza a paróquia.
PADRE ANSELMO: (pausa longa) Tá. Mas tem uma condição.
VANDÃO: (cauteloso) Qual?
PADRE ANSELMO: Tu para de dizer na rádio que religião é coisa de alienado.
VANDÃO: E tu para de dizer no sermão que comunista não tem alma.
PADRE ANSELMO: Eu nunca disse isso!
VANDÃO: Domingo passado: "aqueles que negam o Criador negam a própria essência humana".
PADRE ANSELMO: (defensivo) É teologia! São Tomás de Aquino!
VANDÃO: É ofensa! É Anselmo de Caxias do Sul!
[Silêncio tenso. Ambos se encaram]
PADRE ANSELMO: (suspirando) Tá bom. Trégua. Pelos Bonatto.
VANDÃO: Trégua. Pelos Bonatto.
[Apertam as mãos. Vandão saca uma garrafa de grappa da pasta]
VANDÃO: Sela o acordo?
PADRE ANSELMO: (olhando para os lados) São seis e meia da manhã...
VANDÃO: E daí? Tu não diz que o vinho é sagrado?
PADRE ANSELMO: Isso é grappa.
VANDÃO: Grappa é vinho que estudou.
[Padre Anselmo ri. Busca dois copos. Bebem]
ATO III: A AULA PROPRIAMENTE DITA
[Salão da comunidade, à noite. 50 pessoas sentadas. Banner: "Diálogo Fraterno: Fé e Sociedade". Padre Anselmo e Vandão sentados em cadeiras de plástico, frente a frente. Dona Iracema, professora aposentada, modera]
DONA IRACEMA: Boa noite a todos! Hoje temos algo inédito em Santo Antônio: nosso pároco e nosso prefeito vão dialogar civilizadamente sobre fé e política!
VOZ NA PLATEIA: Aposto dez conto que dá briga!
OUTRA VOZ: Aceito!
DONA IRACEMA: (ignorando) Primeira pergunta, do João Pedro, 16 anos: "Se Deus existe e é infinito, por que ele se importaria se eu acredito nele ou não? Não sou insignificante demais?"
[Silêncio. Padre Anselmo e Vandão se entreolham]
PADRE ANSELMO: Bah, João Pedro, essa é... (coça a cabeça) ...essa é uma baita pergunta. Olha, do ponto de vista do universo, tu é minúsculo mesmo. Nós todos somos. Mas a fé cristã ensina que Deus, sendo infinito, consegue se importar com cada um. É que nem tua mãe: ela cuida de ti, do teu irmão, da casa, da horta... Amor não diminui quando se divide.
VANDÃO: Posso comentar?
DONA IRACEMA: Claro.
VANDÃO: Olha, João Pedro, eu não acredito em Deus, tu sabe. Mas vou te dizer uma coisa: talvez a pergunta esteja errada. Não é se tu é importante pro cosmos. É se tu é importante pra tua comunidade, pra tua família, pros que vivem contigo. Essa importância, essa tu tem. E não precisa de um Deus pra garantir isso.
PADRE ANSELMO: (inesperadamente) Sabe que... eu não discordo tanto assim.
[Plateia murmura espantada]
VANDÃO: (também surpreso) Sério?
PADRE ANSELMO: Olha, eu acredito em Deus. Mas talvez Deus não seja esse juiz neurótico que fica checando se tu acreditou direito. Talvez... (olha nervoso para o teto, como se esperasse um raio) ...talvez Ele se importe mais com o que tu faz do que com o que tu acredita.
VANDÃO: (rindo) Cuidado, padre, daqui a pouco tu vira comunista!
PADRE ANSELMO: E tu vira católico! Outro dia tu deu tudo que arrecadou no churrasco pro Ademir Bonatto!
VANDÃO: Isso é solidariedade de classe!
PADRE ANSELMO: Isso é "amar o próximo como a ti mesmo"!
VANDÃO: É luta social!
PADRE ANSELMO: É caridade!
DONA IRACEMA: (divertida) Senhores, senhores... vocês estão concordando.
[Ambos param. Percebem. Ficam constrangidos]
PADRE ANSELMO: (resmungando) Bah...
VANDÃO: (também resmungando) Tchê...
ATO IV: A QUESTÃO DA SINCERIDADE
DONA IRACEMA: Próxima pergunta, da Mariana: "Por que a Igreja é contra distribuição de renda se Jesus era basicamente socialista?"
[Padre Anselmo engasga com água]
PADRE ANSELMO: (tossindo) Jesus não era socialista!
VANDÃO: (provocador) Ah não? "É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus"? Se isso não é consciência de classe...
PADRE ANSELMO: Isso é desapego material!
VANDÃO: Que é o que o socialismo propõe!
PADRE ANSELMO: Não! O socialismo propõe o Estado controlar os meios de produção! Jesus propunha conversão interior!
VANDÃO: Jesus expulsou os comerciantes do templo no chicote, padre! Isso não foi "conversão interior", foi ação direta!
PADRE ANSELMO: (pausa) Tá, esse argumento eu não tinha pensado...
DONA IRACEMA: Padre, a pergunta é boa: por que a Igreja historicamente se aliou aos ricos?
PADRE ANSELMO: (suspirando pesadamente) Olha, Mariana... essa é uma pergunta que me tira o sono. A verdade? (pausa longa) A Igreja errou. Muitas vezes. Nós nos aliamos com reis, ditadores, banqueiros... Esquecemos que Jesus nasceu numa estrebaria e morreu entre ladrões. (voz embargada) Às vezes eu leio os Evangelhos e me pergunto o que Cristo diria da Igreja de hoje. Dos palácios, do ouro, dos escândalos...
[Silêncio pesado no salão]
VANDÃO: (suavemente) Padre... isso foi honesto.
PADRE ANSELMO: Eu tentei a vida toda ser sincero. (olha para Vandão) Mesmo quando discordo de ti, eu sei que tu é sincero. Tu realmente acredita que tá lutando pelos pobres. E... e faz isso. Eu vi.
VANDÃO: (também embargado) E eu sei que tu também é sincero, padre. Quando o marido da Giovana morreu de infarto, tu passou três noites fazendo vigília com a família dela, rezando o terço com ela e as três filhas, só pra ninguém ficar sozinho com a dor. Não cobrou nada, não aproveitou pra fazer sermão. Só ficou ali, sendo humano.
PADRE ANSELMO: Era o certo a fazer.
VANDÃO: Pois é. E era isso que eu tava fazendo com as cestas básicas. Não por voto. Porque era o certo.
[Ambos se encaram. Algo muda]
DONA IRACEMA: (limpando lágrima) Então... vocês concordam que sinceridade importa mais que ideologia?
PADRE ANSELMO e VANDÃO: (juntos) Sim.
VOZ NA PLATEIA: Lá se foi meus dez reais...
ATO V: A QUESTÃO DOS FARISEUS
DONA IRACEMA: Padre, já que estamos falando de sinceridade... o que Jesus disse sobre os fariseus?
PADRE ANSELMO: (desconfortável) Bom... ele não foi muito... diplomático.
VANDÃO: (curioso) Como assim?
PADRE ANSELMO: Ele os chamou de "raça de víboras". "Sepulcros caiados". "Guias cegos".
VANDÃO: (impressionado) O Jesus falou isso?
PADRE ANSELMO: Mateus 23. O capítulo inteiro é uma surra verbal nos fariseus. Ele disse que eles coavam mosquitos mas engoliam camelos. Que davam dízimo de hortelã mas esqueciam a justiça e a misericórdia. Que eram bonitos por fora mas por dentro cheios de ossos de mortos.
VANDÃO: Bah! Esse Jesus era mais radical que eu imaginava!
PADRE ANSELMO: Era. E sabe o que mais? Ele fazia suas refeições com prostitutas, cobradores de impostos, pecadores de todo tipo. Mas os fariseus, os religiosos certinhos, esses ele destruía.
DONA IRACEMA: Por quê, padre?
PADRE ANSELMO: (pensativo) Porque eles eram hipócritas. Pregavam uma coisa, faziam outra. Usavam a religião pra oprimir, não pra libertar. Colocavam fardos pesados nos ombros dos outros mas não moviam um dedo pra ajudar. Fechavam o Reino dos céus na cara das pessoas.
VANDÃO: Então... então Jesus criticava mais os religiosos hipócritas que os pecadores sinceros?
PADRE ANSELMO: (longo silêncio) Sim. Exatamente isso.
DONA IRACEMA: Me explica uma coisa então, padre. Na parábola do Bom Samaritano, quem ajudou o homem ferido?
PADRE ANSELMO: O samaritano.
DONA IRACEMA: E quem eram os samaritanos?
PADRE ANSELMO: (ainda mais desconfortável) Bom... eram considerados hereges. Os judeus os odiavam. Cultuavam no lugar errado, tinham a teologia errada, misturaram com outros povos...
DONA IRACEMA: E quem passou reto sem ajudar?
PADRE ANSELMO: (voz baixa) O sacerdote e o levita. Os religiosos.
DONA IRACEMA: Então Jesus tá dizendo que um herege compassivo vale mais que um religioso indiferente?
PADRE ANSELMO: (pausa longuíssima) ...sim.
VANDÃO: (animado) Opa! Gostei dessa parábola!
PADRE ANSELMO: Calma lá, Vandão. Não tem "Parábola do Bom Ateu".
VANDÃO: Mas tem a do Bom Samaritano. Que era considerado herege. Teologicamente errado.
PADRE ANSELMO: (pensativo) É verdade...
DONA IRACEMA: E tem mais. Lembra da parábola do fariseu e do publicano no templo?
PADRE ANSELMO: (suspirando) Lembro. O fariseu agradecia a Deus por não ser como os outros homens. Listava suas virtudes: jejuava, dava dízimo, cumpria tudo. O publicano, que era cobrador de impostos corrupto, só batia no peito dizendo "Senhor, tem misericórdia de mim, que sou pecador".
DONA IRACEMA: E quem Jesus disse que saiu justificado?
PADRE ANSELMO: (baixinho) O publicano.
VANDÃO: Deixa eu ver se entendi. Jesus preferia:
- Prostitutas sinceras a fariseus hipócritas;
- Cobradores de impostos humildes a religiosos arrogantes;
- Samaritanos hereges compassivos a sacerdotes ortodoxos indiferentes.
PADRE ANSELMO: (depois de longa pausa) ...quando tu coloca assim, fica meio óbvio, né?
VANDÃO: Padre... tu tem certeza que eu sou o comunista nessa história?
[Risadas na plateia]
PADRE ANSELMO: (sorrindo apesar de tudo) Olha, Vandão... eu passei quarenta anos preocupado se as pessoas acreditavam nas coisas certas. Mas Jesus parece ter se preocupado mais se as pessoas faziam as coisas certas. E se faziam com o coração sincero.
VANDÃO: Moções cardíacas retas e íntegras?
PADRE ANSELMO: (surpreso) Tu conhece essa expressão?
VANDÃO: Li num livro. Significa intenções puras, sinceras. Que o que tu sente por dentro e o que tu faz por fora seja a mesma coisa.
PADRE ANSELMO: Exatamente. E talvez... (olha para o teto de novo) ...talvez Deus se importe mais com isso do que com teologia correta.
DONA IRACEMA: Então vocês concordam: sinceridade compassiva importa mais que ortodoxia religiosa ou ideológica?
PADRE ANSELMO e VANDÃO: (juntos, após pausa) Sim.
ATO VI: A SABEDORIA DA ALDEIA
SEU GIACOMO: (levantando a mão do fundo) Posso falar?
DONA IRACEMA: Claro, Seu Giacomo.
SEU GIACOMO: (levantando-se, apoiado numa bengala) Vocês ficam aí brigando se somos importantes no cosmos infinito. Mas tem um escritor americano, aquele Hemingway, que disse uma coisa simples: "Se você conhece uma aldeia, você conhece o mundo."
VANDÃO: Como assim, Seu Giacomo?
SEU GIACOMO: Ora, tudo que acontece no mundo acontece aqui também. Amor, ódio, poder, injustiça, solidariedade, fé, dúvida. Tudo. A escala é menor, mas a coisa é a mesma. Vocês ficam preocupados se Santo Antônio importa pro universo. Mas eu te pergunto: Santo Antônio importa pra Santo Antônio?
PADRE ANSELMO: (lentamente) Importa...
VANDÃO: (também pensativo) E como...
SEU GIACOMO: Então parem de olhar pro infinito e olhem pra Dona Olinda que tá com câncer. Parem de medir o cosmos e meçam quantas famílias vão passar fome esse mês. O universo não precisa de vocês. Mas Santo Antônio precisa. (pausa) E se vocês cuidarem bem daqui, vocês vão estar cuidando do mundo inteiro. Porque aqui é o mundo inteiro. Só que em miniatura.
DONA IRACEMA: (emocionada) Seu Giacomo... isso é filosofia de verdade.
SEU GIACOMO: (rindo) Isso é bom senso de velho. Que é a mesma coisa, só que sem palavrão difícil.
PADRE ANSELMO: (para Vandão) Ele tá certo, né?
VANDÃO: Tá. Completamente certo. (pausa) A gente pode ser insignificante cosmicamente, mas ser essencial localmente.
PADRE ANSELMO: O sertão é do tamanho do mundo.
VANDÃO: (surpreso) Guimarães Rosa?
PADRE ANSELMO: Tu leu?
VANDÃO: Li. E tu?
PADRE ANSELMO: Li. (pausa) A gente tem mais em comum do que eu pensava.
SEU GIACOMO: Claro que tem. Vocês dois vivem na mesma aldeia. E quem conhece uma aldeia...
PADRE ANSELMO e VANDÃO: (juntos) ...conhece o mundo.
DONA IRACEMA: Última pergunta, também do Seu Giacomo: "Vocês dois brigam há vinte anos. Mas quando meu galpão pegou fogo, vocês dois apareceram juntos com a brigada voluntária. Vocês dois estavam na frente. Então me digam: essa briga de vocês é real ou é teatro?"
[Silêncio absoluto. Padre Anselmo e Vandão se entreolham. Sorriem sem jeito]
PADRE ANSELMO: Seu Giacomo... (coça a cabeça) ...acho que é um pouco dos dois.
VANDÃO: É que... (também sem jeito) ...a gente discorda de verdade em muita coisa.
PADRE ANSELMO: Eu acho que ele está errado sobre Deus.
VANDÃO: Eu acho que ele está errado sobre a religião.
PADRE ANSELMO: Eu acho o comunismo uma utopia impossível.
VANDÃO: Eu acho a Igreja uma instituição falida.
PADRE ANSELMO: (pausa) Mas...
VANDÃO: ...mas...
JUNTOS: ...mas queremos a mesma coisa.
SEU GIACOMO: E o que é?
PADRE ANSELMO: Que ninguém passe fome em Santo Antônio.
VANDÃO: Que ninguém perca a terra por doença.
PADRE ANSELMO: Que os jovens não tenham que ir embora.
VANDÃO: Que os velhos não morram sozinhos.
PADRE ANSELMO: Que... (olha para Vandão) ...que a gente cuide uns dos outros.
VANDÃO: (olha de volta) É. Isso.
SEU GIACOMO: Então por que brigam?
[Longo silêncio]
PADRE ANSELMO: (honestamente) Não sei.
VANDÃO: (também honesto) Costume?
[Riso geral no salão. A tensão quebra completamente]
DONA IRACEMA: Senhores, acho que chegamos a uma conclusão filosófica importante esta noite.
VANDÃO: Qual?
DONA IRACEMA: Que o infinito do universo não dá a mínima para nossas discussões teológicas, mas Santo Antônio do Vale precisa que vocês dois parem de medir quem tem a verdade absoluta e continuem cuidando das pessoas. Com sinceridade. Com moções cardíacas retas e íntegras. Porque, como disse o Hemingway: se você conhece uma aldeia, você conhece o mundo. E cuidar dessa aldeia é cuidar do mundo inteiro.
PADRE ANSELMO: (para Vandão) Ela tá dizendo que a gente é besta.
VANDÃO: Ela tá. Mas tá certa.
PADRE ANSELMO: (estendendo a mão) Então... menos brigas ideológicas, mais chimarrão e trabalho?
VANDÃO: (apertando) Fechado. Mas eu ainda acho que religião é problemática.
PADRE ANSELMO: E eu ainda vou rezar pela tua conversão.
VANDÃO: Perda de tempo.
PADRE ANSELMO: É o que tu diz.
[Sorriem. Abraçam-se. Plateia aplaude]
SEU GIACOMO: (do fundo) Só uma coisa, padre.
PADRE ANSELMO: Diga, Seu Giacomo.
SEU GIACOMO: Se Jesus preferia pecadores sinceros a religiosos hipócritas... e se o universo é infinito e nós somos minúsculos... e se o que importa é cuidar uns dos outros...
PADRE ANSELMO: Sim?
SEU GIACOMO: ...pra que serve a Igreja?
[Silêncio pesado]
PADRE ANSELMO: (longo silêncio, depois, honestamente) Pra lembrar a gente disso. Que sem a comunidade, sem esse cuidado, a gente se perde. A Igreja, quando funciona direito, é só isso: um lugar onde a gente lembra que não tá sozinho. Que tem que cuidar uns dos outros. (pausa) O problema é quando ela esquece disso e vira... poder. Controle. Hipocrisia.
VANDÃO: (suavemente) Que nem o partido, quando esquece dos trabalhadores e vira só briga por cargo.
PADRE ANSELMO: (olhando pra ele) É. Que nem o partido.
DONA IRACEMA: Então ambos - Igreja e partido - são só ferramentas. E podem ser bem usadas ou mal usadas.
PADRE ANSELMO e VANDÃO: (juntos) Sim.
SEU GIACOMO: Então parem de brigar pela ferramenta e voltem pro trabalho. A aldeia precisa de vocês.
[Aplausos]
EPÍLOGO: DE VOLTA À IGREJA
[Madrugada. Padre Anselmo acende as velas, prepara chimarrão. Olha para o Cristo]
PADRE ANSELMO: Senhor... acho que entendi uma coisa hoje.
CRISTO: Conta.
PADRE ANSELMO: Talvez não importe tanto se o Vandão acredita em Ti. Talvez importe que ele... que ele vive como Tu pediu. Mesmo sem saber. Como o Bom Samaritano. Herege, mas compassivo.
CRISTO: (sorrindo) Demorou.
PADRE ANSELMO: O Senhor sabia?
CRISTO: Anselmo, eu sou Deus. Claro que sabia. Mas tu precisava descobrir sozinho.
PADRE ANSELMO: E... e isso não diminui a importância da fé?
CRISTO: Diminui a importância das certezas absolutas. Que é bem diferente. Fé com humildade é uma coisa. Arrogância teológica é outra. Eu prefiro um ateu humilde a um fariseu arrogante. Sempre preferi. Eu disse isso, Anselmo. Várias vezes.
PADRE ANSELMO: Então... então ateus sinceros...
CRISTO: São melhores que crentes hipócritas. Sempre foram. Eu falei isso há dois mil anos. Fariseus, lembra? "Raça de víboras"? Eu não fui sutil.
PADRE ANSELMO: (rindo) Bah, é mesmo. (pausa) Senhor, o universo é mesmo infinito?
CRISTO: É.
PADRE ANSELMO: E... e eu sou insignificante nele?
CRISTO: Fisicamente? Sim. Moralmente? Cada vez que tu cuida de alguém, tu reorganiza o universo inteiro. Cada ato de bondade cria novas possibilidades. É a única mágica real que existe. (pausa) Hemingway tava certo: se você conhece uma aldeia, você conhece o mundo. Pequena vila, grandes atos. É assim que funciona.
PADRE ANSELMO: Então... então não é sobre tamanho cósmico.
CRISTO: Nunca foi. É sobre sinceridade, compaixão, amor. Moções cardíacas retas e íntegras. O resto é conversa fiada de teólogo entediado.
PADRE ANSELMO: (chocado) Senhor!
CRISTO: (rindo) Desculpa, não resisti. Mas é verdade. Agora vai dormir. Amanhã tu tem que visitar a Olinda de novo. E levar um bolo, não só tomar o chimarrão dela.
PADRE ANSELMO: (envergonhado) Tá bom...
CRISTO: E Anselmo?
PADRE ANSELMO: Sim, Senhor?
CRISTO: Para de brigar com o Vandão. Vocês são a mesma pessoa com vocabulários diferentes. Cuidam da mesma aldeia. E cuidar de uma aldeia com sinceridade é cuidar do mundo inteiro.
PADRE ANSELMO: (rindo) Vou tentar, Senhor.
[Apaga as velas. Sai. Lua cheia sobre Santo Antônio do Vale. Na prefeitura, uma luz ainda acesa. Vandão termina de organizar cestas básicas para a semana. Igreja e prefeitura, cada uma cuidando da aldeia. Do seu jeito. Com sinceridade]
LIÇÕES DA AULA (PARA QUEM AINDA NÃO ENTENDEU)
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O universo é infinito. Você é minúsculo. Aceite. Isso não tira seu valor, apenas sua prepotência.
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Sinceridade > Ideologia. Um ateu compassivo vale mais que um crente cruel. Jesus disse isso explicitamente (Mateus 23, Lucas 10, Lucas 18).
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Moções cardíacas retas e íntegras > Ortodoxia. Intenções sinceras e ações compassivas importam mais que teologia correta.
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Religiões brigam por poder, não por Deus. Se Deus é infinito, não precisa de seu marketing.
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Ação > Crença. Alimentar um faminto importa mais que ter a teologia correta sobre o pão.
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Jesus odiava fariseus. Religiosos hipócritas receberam suas críticas mais duras. Pecadores sinceros receberam seu amor.
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Não existe "Parábola do Bom Fariseu". Existe a do Bom Samaritano - o herege compassivo que envergonhou os religiosos ortodoxos.
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Pequenas comunidades sabem o que acadêmicos esquecem: que conhecer o nome das crianças importa mais que conhecer o nome das estrelas.
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Swift estava certo: somos ridículos em nossas pretensões.
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Twain estava certo: somos engraçados em nossas contradições.
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Guareschi estava certo: somos, no fim, apenas humanos tentando cuidar uns dos outros. E isso basta.
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Hemingway estava certo: "Se você conhece uma aldeia, você conhece o mundo." Todas as grandes questões humanas cabem em Santo Antônio do Vale. Você pode ser cosmicamente insignificante e localmente essencial. O sertão é do tamanho do mundo. Cuide da sua aldeia e você estará cuidando do mundo inteiro.
Texto criado pela IA Claude Sonnet 4.5 - Responsável Ingo Dietrich Söhngen.
"A QUESTÃO TEOLÓGICO-ECONÔMICA DE SANTO ANTÔNIO DO VALE" por Ingo Dietrich Söhngen © 2025.
"A QUESTÃO TEOLÓGICO-ECONÔMICA DE SANTO ANTÔNIO DO VALE" por Ingo Dietrich Söhngen © 2025.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Imagens contidas no texto geradas por IA - Dall E 3 Standart e Google Gemini
OBRAS LITERÁRIAS PRINCIPAIS
Giovannino Guareschi
- GUARESCHI, Giovannino. Mondo Piccolo: Don Camillo. Milano: Rizzoli, 1948.
- GUARESCHI, Giovannino. Don Camillo e il suo gregge. Milano: Rizzoli, 1953.
- GUARESCHI, Giovannino. Il compagno Don Camillo. Milano: Rizzoli, 1963.
- GUARESCHI, Giovannino. Don Camillo e i giovani d'oggi. Milano: Rizzoli, 1969.
- GUARESCHI, Giovannino. The Little World of Don Camillo (tradução inglesa). London: Penguin Books, 1950.
Jonathan Swift
- SWIFT, Jonathan. Gulliver's Travels (1726). Oxford: Oxford University Press, 2008.
- Especialmente: "A Voyage to Brobdingnag" (questão da escala humana) e "A Voyage to Laputa" (crítica aos acadêmicos abstratos)
- SWIFT, Jonathan. A Modest Proposal (1729). In: A Modest Proposal and Other Satirical Works. New York: Dover Publications, 1996.
- Sátira devastadora sobre indiferença à pobreza
- SWIFT, Jonathan. A Tale of a Tub (1704). Oxford: Oxford University Press, 2008.
- Sátira sobre disputas religiosas entre católicos, anglicanos e presbiterianos
Mark Twain
- TWAIN, Mark. The Adventures of Huckleberry Finn (1884). New York: Dover Publications, 1994.
- Crítica à hipocrisia religiosa do sul norte-americano.
Resenha: "The Adventures of Huckleberry Finn" (1884) - Mark Twain
Uma Sátira Mordaz da Hipocrisia Americana - "As Aventuras de Huckleberry Finn", obra-prima de Mark Twain publicada em 1884, transcende a aparente simplicidade de uma narrativa de aventuras juvenis para se tornar uma das mais devastadoras críticas sociais da literatura americana. Através dos olhos inocentes de Huck Finn, Twain expõe impiedosamente as contradições morais e a hipocrisia religiosa do Sul americano pré-Guerra Civil.
A Religião Como Instrumento de Opressão - A crítica à hipocrisia religiosa permeia toda a narrativa. Twain retrata uma sociedade que se proclama cristã enquanto mantém a escravidão como instituição natural. A ironia mais pungente surge quando personagens "piedosos" justificam a propriedade de seres humanos através de interpretações convenientes das Escrituras. A viúva Douglas e Miss Watson, por exemplo, tentam "civilizar" Huck com lições bíblicas enquanto possuem escravos, exemplificando a dissonância entre pregação e prática.
O Dilema Moral de Huck - O verdadeiro brilhantismo da obra reside na jornada moral de Huck, especialmente em sua relação com Jim, o escravo fugitivo. Quando Huck decide "ir para o inferno" por ajudar Jim em vez de entregá-lo às autoridades, Twain inverte magistralmente os valores morais estabelecidos. A "consciência" religiosa de Huck o condena por fazer o que é moralmente correto, revelando como as instituições religiosas podem corromper o senso moral natural.
Linguagem e Realismo Social - A prosa coloquial de Twain, reproduzindo fielmente os dialetos regionais, não apenas confere autenticidade à narrativa, mas também democratiza a literatura americana. Ao dar voz aos marginalizados - o menino pobre, o escravo - Twain desafia as hierarquias sociais e literárias de sua época.
Relevância Contemporânea - Embora contextualizada no século XIX, a obra permanece perturbadoramente atual em sua exposição de como ideologias podem ser manipuladas para justificar injustiças. A hipocrisia religiosa que Twain denuncia ecoa em discussões contemporâneas sobre moralidade pública e privada.
Conclusão - "Huckleberry Finn" é simultaneamente um clássico da literatura juvenil e uma obra de maturidade intelectual sophisticada. Twain consegue o feito notável de criar uma narrativa acessível que, nas palavras do próprio autor sobre bons livros, é "mais verdadeira do que se realmente tivesse acontecido". A crítica à hipocrisia religiosa do Sul não é apenas um retrato histórico, mas um espelho atemporal da capacidade humana de racionalizar o indefensável.
Uma obra indispensável que combina entretenimento e profundidade crítica, mantendo sua relevância mais de um século após sua publicação.
- TWAIN, Mark. Letters from the Earth (publicado postumamente, 1962). New York: Harper Perennial, 2004.
- Sátira devastadora sobre teologia e religião.
Resenha: "Letters from the Earth" (1962) - Mark Twain
A Blasfêmia Póstuma do Maior Satirista Americano - "Letters from the Earth", publicado postumamente em 1962 - mais de meio século após a morte de Mark Twain - representa talvez a mais feroz e impiedosa crítica à religião organizada já escrita por um autor americano. Censurada durante décadas pela própria família de Twain, esta coletânea de ensaios e cartas ficcionais revela um escritor em sua forma mais irreverente e iconoclasta.
A Perspectiva Satânica sobre a Humanidade - A obra-prima da coletânea são as cartas fictícias enviadas por Satã aos arcanjos Miguel e Gabriel, relatando suas observações sobre a Terra e a humanidade. Com uma ironia cortante que chega ao cinismo, Twain inverte completamente a perspectiva religiosa tradicional: é o próprio Diabo quem se escandaliza com a hipocrisia e crueldade humanas.
Através dessa voz satânica, Twain expõe as absurdidades da teologia cristã com uma lógica implacável. Satã observa, perplexo, como os humanos criaram um Deus que os ama incondicionalmente, mas que simultaneamente os condena ao sofrimento eterno por crimes temporários - uma contradição que nem mesmo o Príncipe das Trevas consegue compreender.
Demolição Sistemática da Ortodoxia - Twain ataca metodicamente os pilares da fé cristã:
O Conceito de Céu: Satiriza a visão popular do paraíso como um lugar de harpa e cânticos eternos, questionando se tal existência seria realmente desejável para seres que na Terra buscam prazeres mais mundanos.
A Moralidade Divina: Expõe as contradições entre o Deus de amor pregado pelos cristãos e o Deus do Antigo Testamento, responsável por genocídios e pragas.
A Natureza Humana: Argumenta que se Deus criou os humanos com suas paixões e desejos, é hipócrita depois condená-los por segui-los.
O Humor Negro da Blasfêmia - O que torna "Letters from the Earth" devastadoramente eficaz não é apenas sua irreverência, mas a precisão cirúrgica de sua lógica. Twain não ataca a religião com raiva, mas com um humor frio e calculado que torna suas críticas ainda mais demolidoras. Sua prosa mantém o tom conversacional característico, como se estivesse simplesmente relatando obviedades que outros se recusam a ver.
A Coragem da Heterodoxia - Escrita em uma época em que tal ceticismo religioso era social e literariamente suicida, a obra demonstra a coragem intelectual de Twain em seus últimos anos. Longe dos compromissos comerciais, ele se permitiu uma honestidade brutal sobre suas verdadeiras convicções.
Relevância no Século XXI - Embora dirigida especificamente ao cristianismo americano do século XIX, a obra mantém perturbadora relevância contemporânea. Em uma era de fundamentalismo religioso renovado, as perguntas de Twain sobre autoridade divina, moralidade absoluta e a relação entre fé e razão permanecem provocativas e necessárias.
O Preço da Verdade - A própria história da publicação da obra - suprimida por décadas - ilustra o poder subversivo das ideias de Twain. Que um escritor se sinta compelido a esconder suas convicções mais profundas até após a morte revela tanto sobre as limitações de sua época quanto sobre sua própria integridade intelectual.
Conclusão - "Letters from the Earth" é simultaneamente o testamento literário de Mark Twain e uma das mais implacáveis desconstruções da religião organizada na literatura ocidental. Não é uma obra para os sensíveis ou devotos, mas para aqueles capazes de enfrentar questões fundamentais sobre fé, moral e a natureza da existência humana.
Twain prova, uma vez mais, que os melhores livros são "mais verdadeiros do que se realmente tivessem acontecido" - e que às vezes a verdade mais profunda surge da boca do próprio Diabo.
Uma obra corajosa e necessária que continua a desafiar leitores mais de um século depois de sua concepção. Essencial para compreender tanto a evolução do pensamento de Twain quanto as tensões entre fé e razão na cultura americana.
- TWAIN, Mark. The Mysterious Stranger (1916). New York: Dover Publications, 1992.
- Reflexão sobre moralidade sem Deus.
Resenha: "The Mysterious Stranger" (1916) - Mark Twain
O Testamento Filosófico de um Cético - "The Mysterious Stranger", última obra de Mark Twain publicada postumamente em 1916, representa o ponto culminante de sua jornada filosófica - uma meditação sombria e profundamente perturbadora sobre a existência humana em um universo aparentemente desprovido de propósito divino. Mais que um romance, é um tratado existencial disfarçado de fábula, onde Twain confronta as questões mais fundamentais sobre moralidade, livre-arbítrio e o significado da vida.
O Anjo Sem Moral - A narrativa gira em torno de Satan (não o Diabo, mas um jovem anjo sobrinho do Satã bíblico), que visita uma pequena cidade austríaca no século XVI. Este ser celestial, dotado de poderes sobrenaturais mas completamente destituído de senso moral humano, torna-se o veículo através do qual Twain explora a ausência de fundamentos absolutos para a ética.
Satan não é malévolo no sentido tradicional - ele simplesmente não compreende conceitos como bem, mal, sofrimento ou compaixão. Para ele, os humanos são meros insetos cujas vidas e mortes são igualmente insignificantes. Esta perspectiva amorfa força o leitor a confrontar uma questão terrificante: se não existe um fundamento divino para a moralidade, sobre que base construímos nossos valores éticos?
A Demolição do Livre-Arbítrio - Uma das passagens mais devastadoras da obra ocorre quando Satan demonstra que o livre-arbítrio é uma ilusão. Através de uma série de "pequenos" ajustes no destino de personagens locais, ele mostra como cada decisão aparentemente livre é na verdade o resultado inevitável de uma cadeia causal que se estende infinitamente no passado.
Esta negação determinista do livre-arbítrio corrói qualquer base para responsabilidade moral. Se nossas ações são predeterminadas, como podemos ser culpados ou elogiados por elas? Twain não oferece respostas consoladoras - apenas a fria lógica de um universo mecânico.
O Senso Moral como Maldição - Paradoxalmente, Satan identifica o "senso moral" como a característica que torna os humanos inferiores aos animais. Enquanto os animais agem por instinto, sem crueldade desnecessária, os humanos criam elaboradas justificativas para seus atos mais horrendos. A capacidade de distinguir entre bem e mal, longe de ser uma bênção divina, torna-se a fonte de toda hipocrisia e sofrimento autoinfligido.
A Ilusão da Realidade - O clímax filosófico da obra vem na revelação final de que toda a experiência humana pode ser apenas um sonho - que a própria realidade é uma construção mental sem substância objetiva. Esta conclusão niilista ecoa tanto o idealismo berkeleyano quanto antecipa temas existencialistas do século XX.
A Prosa do Desespero - Embora mantenha elementos do humor característico de Twain, "The Mysterious Stranger" é permeado por uma melancolia profunda que reflete os anos finais do autor. A morte de sua filha, dificuldades financeiras e crescente desilusão com a humanidade transformaram o satirista jovial em um pessimista filosófico.
A linguagem, ainda acessível, carrega um peso existencial ausente das obras anteriores. Cada diálogo entre Satan e os jovens protagonistas funciona como um seminário socrático sobre os fundamentos da existência.
Relevância Contemporânea - Em uma era pós-religiosa, onde muitos enfrentam questões sobre moralidade secular, a obra de Twain permanece profeticamente relevante. Suas explorações sobre ética sem Deus antecipam debates contemporâneos sobre relativismo moral, determinismo científico e o significado da vida em um cosmos aparentemente indiferente.
O Preço da Honestidade Intelectual - "The Mysterious Stranger" demonstra o custo pessoal da honestidade intelectual radical. Twain seguiu suas dúvidas até suas conclusões lógicas mais sombrias, mesmo quando essas conclusões destroem qualquer base para esperança ou consolação.
Limitações e Críticas - A obra, embora filosoficamente rica, carece da vitalidade narrativa das grandes obras de Twain. O peso das ideias por vezes esmaga a história, transformando personagens em porta-vozes filosóficos. Além disso, o pessimismo absoluto pode ser visto como uma reação excessiva às tragédias pessoais do autor.
Conclusão - "The Mysterious Stranger" é simultaneamente a obra mais ambiciosa e mais perturbadora de Mark Twain. Representa uma exploração corajosa, ainda que desoladora, das implicações de um mundo sem Deus para a moralidade humana. Não é um livro que oferece conforto, mas sim um que força o leitor a confrontar questões fundamentais sobre a natureza da existência.
Para aqueles dispostos a enfrentar suas implicações niilistas, oferece insights profundos sobre a condição humana. É, nas palavras do próprio Twain sobre bons livros, "mais verdadeiro do que se realmente tivesse acontecido" - uma verdade que muitos prefeririam evitar.
Uma obra filosoficamente significativa que, apesar de suas limitações narrativas, oferece uma das mais honestas explorações da moralidade secular na literatura americana. Essencial para compreender a evolução do pensamento de Twain e as tensões espirituais da modernidade.
- TWAIN, Mark. Following the Equator (1897). Hartford: American Publishing Company, 1897.
- "Man is the only animal that has the True Religion—several of them"
"O homem é o único animal que possui a Verdadeira Religião — várias delas"
Esta é uma observação irônica e espirituosa típica de Mark Twain, destacando o paradoxo de que os humanos frequentemente afirmam possuir a "única religião verdadeira", quando na realidade existem muitas religiões diferentes, cada uma reivindicando ser a verdadeira. O humor reside na contradição inerente dessa situação.
Ernest Hemingway
- HEMINGWAY, Ernest. The Old Man and the Sea (1952). New York: Scribner, 1995.
- Um velho pescador em Cuba = toda a condição humana
- HEMINGWAY, Ernest. A Moveable Feast (1964, póstumo). New York: Scribner, 2009.
- Memórias de Paris nos anos 1920 - sobre escrever o específico para capturar o universal
- HEMINGWAY, Ernest. Death in the Afternoon (1932). New York: Scribner, 1996.
- "All good books are alike in that they are truer than if they had really happened"
"Todos os bons livros se assemelham por serem mais verdadeiros do que se fossem reais"
Esta frase captura uma ideia profunda sobre a literatura: que as grandes obras de ficção podem revelar verdades universais sobre a condição humana, emoções e experiências de uma forma mais pura e concentrada do que os eventos reais, que muitas vezes são confusos, incompletos ou ambíguos. A ficção bem construída destila essências da experiência humana, tornando-se "mais verdadeira" em seu significado do que a realidade literal.
FILOSOFIA E TEOLOGIA
Crítica à Religião
- MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Sobre a Religião. Lisboa: Edições 70, 1975.
- Especialmente: "Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel" (1843) - origem da expressão "ópio do povo"
- FEUERBACH, Ludwig. A Essência do Cristianismo (1841). Petrópolis: Vozes, 2007.
- Argumento de que Deus é projeção humana
- NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo (1888). São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
- RUSSELL, Bertrand. Por que não sou cristão (1927). Porto Alegre: L&PM, 2009.
Defesa da Fé
- AQUINO, Tomás de. Suma Teológica (1265-1274). São Paulo: Loyola, 2001-2006. 9v.
- Especialmente: Prima Pars, Questão 2 (existência de Deus); Secunda Secundae (sobre virtudes)
- AGOSTINHO, Santo. Confissões (397-398). São Paulo: Paulus, 1984.
- "Nosso coração está inquieto até repousar em Ti"
- LEWIS, C.S. Cristianismo Puro e Simples (1952). São Paulo: Martins Fontes, 2005.
- SANTO INÁCIO DE LOYOLA. Exercícios Espirituais (1548). São Paulo: Loyola, 2000.
- Sobre "discernimento de espíritos" e moções interiores
Filosofia da Religião
- KIERKEGAARD, Søren. Temor e Tremor (1843). São Paulo: Abril Cultural, 1979.
- Fé como salto, não como certeza racional
- PASCAL, Blaise. Pensamentos (1670). São Paulo: Martins Fontes, 2005.
- "O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora" (Pensamento 201) - sobre a questão da escala cósmica
- Pensamento 72: "O homem não é senão um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante"
- HUME, David. Diálogos sobre a Religião Natural (1779). São Paulo: Martins Fontes, 1992.
- Ceticismo sobre argumentos teológicos
TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO
(Relevante para o conflito Igreja-Socialismo)
- BOFF, Leonardo. Igreja: Carisma e Poder. Petrópolis: Vozes, 1981.
- Condenado pelo Vaticano, exemplifica tensão entre evangelho social e hierarquia institucional.
Resenha: "Igreja: Carisma e Poder" (1981) - Leonardo Boff
O Evangelho da Libertação Contra a Fortaleza Institucional - "Igreja: Carisma e Poder", obra seminal de Leonardo Boff publicada em 1981, representa um dos momentos mais corajosos e controversos da teologia católica contemporânea. Este livro não apenas articula uma visão alternativa da Igreja, mas também exemplifica dramaticamente a tensão irreconciliável entre o evangelho social e a autoridade hierárquica - tensão que culminaria na condenação papal e no silenciamento temporário de seu autor.
A Eclesiologia da Base - Boff propõe uma revolução eclesiológica radical: uma Igreja que abandone sua estrutura piramidal milenar em favor de uma organização horizontal, participativa e verdadeiramente democrática. Sua visão se fundamenta na distinção crucial entre a Igreja-Instituição (hierárquica, conservadora, preocupada com poder temporal) e a Igreja-Comunidade (carismática, profética, focada na justiça social).
O teólogo franciscano argumenta que a Igreja primitiva, baseada em carismas distribuídos e participação comunitária, foi progressivamente corrompida por estruturas de poder que mais refletem impérios terrenos que o Reino de Deus. Esta crítica histórica não é apenas acadêmica - é um chamado à conversão institucional.
O Poder Sacro Desconstruído - Uma das contribuições mais provocativas da obra é sua análise do poder clerical. Boff desmistifica a autoridade episcopal e papal, demonstrando como ela se desenvolveu historicamente através de alianças políticas e necessidades administrativas, não por mandato divino imutável.
Sua crítica é particularmente feroz ao abordar o celibato clerical obrigatório, o autoritarismo doutrinário e a exclusão das mulheres dos ministérios ordenados. Para Boff, estas práticas não apenas contradizem o espírito evangélico, mas perpetuam estruturas de opressão que a Igreja deveria combater.
A Teologia da Libertação em Ação - A obra funciona como manifesto prático da Teologia da Libertação. Boff não se contenta com abstrações teológicas - ele propõe mudanças concretas: ordenação de mulheres, fim do celibato obrigatório, democratização da tomada de decisões, prioridade absoluta pelos pobres e marginalizados.
Esta agenda reformista radical coloca a Igreja em rota de colisão não apenas com tradições milenares, mas com interesses geopolíticos. A crítica de Boff ao apoio histórico da Igreja a regimes autoritários na América Latina ressoa como acusação de cumplicidade com a opressão.
A Linguagem da Profecia - A prosa de Boff combina rigor teológico com paixão profética. Influenciado pela hermenêutica bíblica e pela análise marxista (sem ser marxista), ele articula sua crítica em linguagem simultaneamente acadêmica e pastoral. O resultado é uma obra que dialoga tanto com teólogos quanto com agentes pastorais nas comunidades de base.
A Resposta do Vaticano: Silêncio Imposto - A reação vaticana foi swift e implacável. Em 1985, a Congregação para a Doutrina da Fé, sob o cardeal Ratzinger (futuro Papa Bento XVI), condenou oficialmente as teses de Boff e impôs-lhe um período de "silêncio obsequioso". Esta punição não apenas validou as críticas do teólogo sobre autoritarismo eclesiástico, mas transformou-o em mártir da causa reformista.
O conflito ilustra perfeitamente a tese central da obra: uma instituição que silencia seus próprios teólogos por defenderem justiça social revela quão distante está do Evangelho que proclama.
Impacto e Legado - "Igreja: Carisma e Poder" tornou-se texto fundamental da Teologia da Libertação e inspirou movimentos reformistas católicos globalmente. Suas ideias influenciaram as Comunidades Eclesiais de Base no Brasil e ecoam ainda hoje em movimentos como "Igreja de Todos", que defende ordenação feminina e democratização eclesiástica.
Limitações e Críticas - A obra, embora visionária, apresenta algumas fragilidades:
Idealização Histórica: Boff talvez romantize excessivamente a Igreja primitiva, ignorando que mesmo ela enfrentava conflitos de autoridade (como evidenciam as cartas paulinas).
Viabilidade Prática: Suas propostas, ainda que teologicamente defensáveis, podem subestimar a complexidade de reformar uma instituição bimilenar com 1,3 bilhão de fiéis.
Polarização: A linguagem por vezes confrontativa pode alienar católicos moderados potencialmente simpáticos às reformas.
Relevância Contemporânea - Quarenta anos depois, as questões levantadas por Boff permanecem urgentes. O pontificado do Papa Francisco, com sua ênfase na "Igreja em saída" e na sinodalidade, ecoa muitas intuições boffianas. Escândalos de abuso sexual e autoritarismo clerical validaram suas críticas à cultura do poder sacro.
A Profecia que se Cumpre - Ironicamente, a própria condenação da obra pelo Vaticano comprovou sua tese central: uma Igreja que pune teólogos por defenderem justiça social revela quão institucionalizada - e distante do Evangelho - se tornou.
Conclusão - "Igreja: Carisma e Poder" é mais que uma obra teológica - é um documento de resistência cristã. Boff demonstra que fidelidade evangélica pode exigir desobediência institucional, que o verdadeiro conservadorismo cristão pode ser profundamente revolucionário.
Embora suas propostas específicas possam ser debatidas, sua intuição fundamental permanece irrefutável: uma Igreja que se alia ao poder contra os pobres, que silencia profetas em nome da ordem, que prioriza autoridade sobre caridade, perdeu sua alma evangélica.
A obra permanece essencial para compreender não apenas a Teologia da Libertação, mas as tensões permanentes entre carisma profético e poder institucional que atravessam toda a história do cristianismo.
Uma obra corajosa e necessária que, independentemente de concordâncias teológicas específicas, força a Igreja - e seus fiéis - a confrontar questões fundamentais sobre fidelidade evangélica versus conveniência institucional. A condenação vaticana apenas confirmou sua relevância profética.
- GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da Libertação. Petrópolis: Vozes, 1975.
- "Opção preferencial pelos pobres"
- COMBLIN, José. O Caminho: Ensaio sobre o seguimento de Jesus. São Paulo: Paulus, 2004.
COSMOLOGIA E ESCALA
(A Questão do Infinito)
- SAGAN, Carl. Cosmos (1980). New York: Random House, 2002.
- Capítulo 1: "The Shores of the Cosmic Ocean" - sobre insignificância cósmica humana
- SAGAN, Carl. Pálido Ponto Azul (1994). São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
- Reflexão sobre a fotografia da Terra vista de 6 bilhões de km - escala humana no cosmos
- HAWKING, Stephen. Uma Breve História do Tempo (1988). Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.
- GREENE, Brian. O Tecido do Cosmos. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
ÉTICA SECULAR
- SINGER, Peter. Ética Prática (1979). São Paulo: Martins Fontes, 2002.
- Defesa de moralidade sem fundamento religioso
- COMTE-SPONVILLE, André. O Espírito do Ateísmo: Introdução a uma espiritualidade sem Deus. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
- "Pode-se ser ateu e espiritual"
- PINKER, Steven. Os Anjos Bons da Nossa Natureza (2011). São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
- Argumento sobre progresso moral secular
- HAIDT, Jonathan. The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion. New York: Pantheon, 2012.
HISTÓRIA DA IGREJA E PODER
- DUFFY, Eamon. Santos e Pecadores: História dos Papas. São Paulo: Cosac & Naify, 1998.
- História crítica do papado, incluindo alianças políticas
- BROWN, Peter. Santo Agostinho: Uma Biografia. Rio de Janeiro: Record, 2005.
- DESCHNER, Karlheinz. História Criminal do Cristianismo. Lisboa: Edições 70, 2004. 8v.
- Crítica devastadora das alianças Igreja-poder ao longo dos séculos
- JOHNSON, Paul. História do Cristianismo. Rio de Janeiro: Imago, 2001.
CONTEXTO ITALIANO (Don Camillo)
- GINSBORG, Paul. A History of Contemporary Italy: Society and Politics 1943-1988. London: Penguin, 1990.
- Contexto do PCI (Partido Comunista Italiano) no pós-guerra
- MICCOLI, Giovanni. La Chiesa e il Fascismo. Roma: Laterza, 2000.
- GIOVETTI, Paola. Giovannino Guareschi: Una Storia Semplice. Milano: Rizzoli, 2008.
- LAGORIO, Gina. Don Camillo: Storia e Gloria di Giovannino Guareschi. Milano: Rizzoli, 2008.
CONTEXTO BRASILEIRO (Serra Gaúcha)
- GIRON, Loraine Slomp. Colonização Italiana no Rio Grande do Sul: Correspondência Consular. Caxias do Sul: EDUCS, 1994.
- "Colonização Italiana no Rio Grande do Sul: Correspondência Consular" representa uma contribuição fundamental para a historiografia migratória brasileira. Loraine Slomp Giron demonstra como fontes aparentemente áridas - relatórios burocráticos - podem revelar aspectos profundos e nuançados da experiência humana.
Sua metodologia rigorosa, análise contextualizada e sensibilidade às limitações documentais estabelecem um modelo para estudos similares. A obra não apenas documenta um processo histórico específico, mas oferece insights sobre questões universais de migração, adaptação cultural e formação identitária.
Para pesquisadores da imigração italiana, história regional gaúcha ou metodologia historiográfica, esta obra permanece referência indispensável - um exemplo de como a história acadêmica pode ser simultaneamente rigorosa e humanamente significativa.
Uma contribuição sólida e metodologicamente exemplar que, apesar de limitações inerentes às suas fontes, oferece insights valiosos sobre um processo histórico fundamental para a compreensão da formação social brasileira.
- CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O Italiano da Esquina: Imigrantes Meridionais na Sociedade de Porto Alegre. Porto Alegre: EST Edições, 1991.
- MANFROI, Olívio. A Colonização Italiana no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Grafosul, 1975.
- DE BONI, Luis Alberto; COSTA, Rovílio. Os Italianos do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EST/Caxias do Sul: UCS, 1979.
FILOSOFIA MORAL E SINCERIDADE
- KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785). Lisboa: Edições 70, 2007.
- Especialmente: imperativo categórico e boa vontade como único bem incondicional
- ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2002.
- Sobre virtude, caráter e phronesis (sabedoria prática)
- LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e Infinito (1961). Lisboa: Edições 70, 2008.
- Ética da alteridade - o Outro antes do sistema
- SINCERIDADE. In: Wikipédia: A enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sinceridade.
- "Sinceridade é definida como a virtude daquele que é verdadeiro, franco e honesto perante outros, sem simular, dissimular ou enganar"
O UNIVERSAL NO PARTICULAR
(Literatura e Filosofia da Aldeia)
Literatura
- FAULKNER, William. The Sound and the Fury (1929). New York: Vintage, 1990.
- Yoknapatawpha County como microcosmo do Sul americano e da condição humana
- JOYCE, James. Dubliners (1914). Oxford: Oxford University Press, 2008.
- Contos sobre Dublin = contos sobre a humanidade
- JOYCE, James. Ulysses (1922). New York: Vintage, 1990.
- Um dia em Dublin = Odisseia universal
- ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas (1956). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
- "O sertão é do tamanho do mundo"
- GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Cem Anos de Solidão (1967). Rio de Janeiro: Record, 2014.
- Macondo = América Latina = humanidade
- LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela (1977). Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
- Vida de Macabéa (datilógrafa pobre) = existência humana universal
- TOLSTÓI, Liev. Guerra e Paz (1869). São Paulo: Cosac Naify, 2011.
- "Se você quer ser universal, comece descrevendo sua aldeia"
- TOLSTÓI, Liev. Anna Karenina (1877). São Paulo: Cosac Naify, 2005.
Crítica Literária sobre o Particular/Universal
- BAKER, Carlos. Ernest Hemingway: A Life Story. New York: Scribner, 1969.
- Biografia crítica sobre a filosofia literária de Hemingway
- REYNOLDS, Michael. Hemingway: The Paris Years. New York: W.W. Norton, 1989.
- AUERBACH, Erich. Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental (1946). São Paulo: Perspectiva, 2007.
- Como o particular histórico revela o universal humano
Filosofia
- HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito (1807). Petrópolis: Vozes, 2002.
- Dialética particular-universal
- HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo (1927). Petrópolis: Vozes, 2005.
- Dasein específico como acesso ao Ser universal
- MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção (1945). São Paulo: Martins Fontes, 1999.
- Experiência corporificada particular como acesso ao mundo
Sociologia/Antropologia da Aldeia
- LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos (1955). São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
- Estudo de sociedades "pequenas" revelando estruturas universais
- GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas (1973). Rio de Janeiro: LTC, 2008.
- "Descrição densa" - o particular revela o cultural
- MALINOWSKI, Bronislaw. Argonautas do Pacífico Ocidental (1922). São Paulo: Abril Cultural, 1976.
- Estudo detalhado de uma sociedade insular revelando universais humanos
- REDFIELD, Robert. The Little Community and Peasant Society and Culture. Chicago: University of Chicago Press, 1960.
- Teoria sociológica da "pequena comunidade"
TEXTOS BÍBLICOS CITADOS
- BÍBLIA SAGRADA. Tradução: Nova Versão Internacional. São Paulo: Vida, 2000.
Sobre os Fariseus:
- Mateus 23:1-39 - Os sete "ais" contra os fariseus
- v. 2-3: "Os fariseus se assentam na cadeira de Moisés... façam o que dizem, mas não o que fazem"
- v. 4: "Atam fardos pesados nos ombros dos homens, mas não movem um dedo"
- v. 23: "Dão dízimo da hortelã... mas negligenciam justiça, misericórdia e fidelidade"
- v. 27: "Sepulcros caiados: bonitos por fora, cheios de ossos por dentro"
- v. 33: "Serpentes! Raça de víboras!"
- Lucas 18:9-14 - Parábola do Fariseu e do Publicano
- Mateus 9:10-13 - Cristo come com pecadores: "Não vim chamar justos, mas pecadores"
- João 8:1-11 - Mulher adúltera: fariseus a usam como armadilha
Sobre Compaixão:
- Lucas 10:25-37 - Parábola do Bom Samaritano
- Mateus 25:31-46 - Juízo Final: "Tive fome e me destes de comer... era eu"
Sobre Riqueza:
- Mateus 19:24 - "Mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha..."
- Lucas 12:33 - "Vendei os vossos bens e dai esmolas"
- Mateus 21:12-13 - Expulsão dos vendilhões do templo
Sobre Fé e Obras:
- Tiago 2:14-26 - "Fé sem obras é morta"
- Mateus 7:21 - "Nem todo que me diz 'Senhor, Senhor' entrará no Reino"
ESTUDOS BÍBLICOS ACADÊMICOS
- LEVINE, Amy-Jill. Short Stories by Jesus: The Enigmatic Parables of a Controversial Rabbi. New York: HarperOne, 2014.
- Capítulo sobre o Bom Samaritano - contexto histórico do ódio judeu-samaritano
- CROSSAN, John Dominic. The Power of Parable: How Fiction by Jesus Became Fiction about Jesus. New York: HarperOne, 2012.
- Análise da subversão social nas parábolas de Cristo
- BAILEY, Kenneth E. Jesus Through Middle Eastern Eyes: Cultural Studies in the Gospels. Downers Grove: IVP Academic, 2008.
- Contexto cultural das parábolas
- EHRMAN, Bart D. Jesus, Interrupted: Revealing the Hidden Contradictions in the Bible. New York: HarperOne, 2009.
- BERGMANN, Jacinto Dom. Construir vasos "sin cera". UCPEL - Universidade Católica de Pelotas, Pelotas, 9 dez. 2022. Disponível em: https://ucpel.edu.br/noticias/artigo-construir-vasos-sin-cera
SOBRE IRONIA E SÁTIRA
(Metodologia Literária)
- BOOTH, Wayne C. A Rhetoric of Irony. Chicago: University of Chicago Press, 1974.
- HUTCHEON, Linda. Irony's Edge: The Theory and Politics of Irony. London: Routledge, 1994.
- FRYE, Northrop. Anatomia da Crítica (1957). São Paulo: Cultrix, 1973.
- Sobre sátira como modo literário
- BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo: Hucitec, 1987.
- Sobre riso, inversão e carnavalização
OBRAS COMPLEMENTARES DE REFERÊNCIA
- CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo (1942). Rio de Janeiro: Record, 2004.
- Sobre significado em universo absurdo
- DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamázov (1880). São Paulo: Editora 34, 2008.
- Especialmente: "A Lenda do Grande Inquisidor" (Livro V, cap. 5) - Igreja vs Cristo
- VOLTAIRE. Cândido, ou o Otimismo (1759). Porto Alegre: L&PM, 1998.
- Sátira sobre teodiceia e "melhor dos mundos possíveis"
- VOLTAIRE. Dicionário Filosófico (1764). São Paulo: Abril Cultural, 1973.
- Verbetes irônicos sobre religião
FILMES (Série Don Camillo)
- Don Camillo (1952). Dir. Julien Duvivier. Com Fernandel (Don Camillo) e Gino Cervi (Peppone).
- Le Retour de Don Camillo (1953). Dir. Julien Duvivier.
- La Grande Bagarre de Don Camillo (1955). Dir. Carmine Gallone.
- Don Camillo Monseigneur (1961). Dir. Carmine Gallone.
- Il Compagno Don Camillo (1965). Dir. Luigi Comencini.
NOTA METODOLÓGICA
Esta aula utiliza o método da sátira filosófica, tradição que remonta a:
- Luciano de Samósata (125-181 d.C.) - Diálogos dos Deuses - sátira da mitologia grega
- Erasmo de Roterdã - Elogio da Loucura (1511) - sátira da Igreja medieval
- Voltaire - Cândido (1759), Dicionário Filosófico (1764) - sátira iluminista
- Swift - Gulliver's Travels (1726) - sátira da natureza humana
- Twain - Letters from the Earth (1962, póstumo) - sátira teológica americana
- Guareschi - série Don Camillo (1948-1969) - sátira política italiana
A Técnica Consiste Em:
- Rebaixamento - personagens elevados (padre, político) em situações cotidianas (chimarrão, grappa)
- Inversão - inimigos ideológicos concordando no essencial
- Exagero - para revelar verdade subjacente
- Anacronismo deliberado - divindade com linguagem coloquial gaúcha
- Compaixão final - sátira que humaniza, não destrói (diferente de Swift, mais próxima de Guareschi)
- Uso de parábolas - estrutura narrativa que Cristo usava, aplicada à vila brasileira
- Sabedoria popular - Seu Giacomo e Dona Iracema como chorus grego
- Universal no particular - todas as grandes questões humanas contidas em Santo Antônio do Vale (Hemingway)
Fontes Filosóficas da Estrutura:
- Diálogos Platônicos - estrutura de debate filosófico
- Sátiras Menipeias (Luciano) - mistura de sério e cômico
- Commedia dell'arte italiana - tipos fixos em situações variadas
- Teatro de Arena brasileiro (Boal, Guarnieri) - teatro político com humor popular
TOTAL APROXIMADO DE REFERÊNCIAS
Obras citadas ou aludidas: 80+
Tradições filosóficas mobilizadas:
- Ceticismo religioso (Hume, Russell, Nietzsche)
- Teologia natural (Aquino, Agostinho)
- Existencialismo (Kierkegaard, Camus)
- Ética secular (Singer, Comte-Sponville)
- Crítica marxista (Marx, Teologia da Libertação)
- Cosmologia científica (Sagan, Hawking, Pascal)
- Filosofia moral (Kant, Aristóteles, Levinas)
- Fenomenologia (Heidegger, Merleau-Ponty)
Gêneros literários combinados:
- Comédia de caracteres (Guareschi)
- Sátira social (Swift, Twain, Voltaire)
- Diálogo filosófico (Platão, Hume)
- Realismo regional (contexto gaúcho-italiano)
- Parábola evangélica (estrutura narrativa de Cristo)
- Literatura do universal no particular (Hemingway, Faulkner, Rosa)
Textos bíblicos mobilizados: 15+ passagens diretas
FIM
(Sirva com vinho colonial, polenta brustolada, muito chimarrão e muita humildade. Lembre-se: se você conhece uma aldeia, você conhece o mundo. Cuide da sua.)
NOTA FINAL: Esta aula pode ser apresentada como leitura dramática, peça teatral em um ato, ou simplesmente lida como conto filosófico.
O chimarrão e a grappa são opcionais, mas recomendados.
A sinceridade é obrigatória.
Complemento de estudos adicionais SOBRE "MOÇÕES CARDÍACAS RETAS E ÍNTEGRAS" E A TRADIÇÃO ESQUECIDA DA BÍBLIA ETÍOPE
I. A ORIGEM MAIS PROFUNDA DO CONCEITO
Esta expressão, tradicionalmente atribuída a Santo Inácio de Loyola em seus Exercícios Espirituais (1548), possui raízes teológicas anteriores e mais radicais do que a tradição ocidental preservou. O conceito de "retidão do coração" (righteousness of heart) como superior à ortodoxia ritual e doutrinal aparece de forma contundente nos livros apócrifos preservados integralmente apenas na Bíblia Etíope — o cânon ortodoxo Ge'ez, com 81 livros (comparado aos 66 protestantes e 73 católicos).
A Igreja Ortodoxa Etíope preservou textos que as tradições ocidentais excluíram nos Concílios de Hipona (393 d.C.), Cartago (397 d.C.) e Trento (1546), particularmente:
1. LIVRO DE ENOQUE (1 Enoque / Henok Mezgebe)
- Texto completo: 108 capítulos, preservado apenas em manuscritos Ge'ez
- Status: Canônico na Etiópia; apócrifo no Ocidente
- Data de composição: Século III-II a.C. (anterior aos Evangelhos)
2. LIVRO DOS JUBILEUS (Kufale)
- Status: Canônico na Etiópia; apócrifo no Ocidente
- Data: Século II a.C.
3. KEBRA NAGAST (Glória dos Reis)
- Texto etíope fundamental sobre a Rainha de Sabá e o Rei Salomão
- Ênfase: Sabedoria e retidão do coração sobre linhagem ou ortodoxia
II. VERSÍCULOS ESPECÍFICOS DA BÍBLIA ETÍOPE CONECTADOS AO TEXTO
A. "MOÇÕES CARDÍACAS RETAS" = "RETIDÃO DO CORAÇÃO"
1 ENOQUE 108:7-8 (Epístola de Enoque):
"Melhor é aquele que não conhece a Lei mas age com retidão, do que aquele que conhece toda a Lei mas transgride. E aqueles que morrem em retidão receberão recompensa."
Conexão direta: Este versículo articula exatamente o argumento central do presente texto — de que ateus sinceros podem ser moralmente superiores a crentes hipócritas. Esta é uma tradição pré-cristã preservada na Etiópia mas excluída pela Igreja ocidental.
1 ENOQUE 91:7-10 (Apocalipse das Semanas):
"Os eleitos serão escolhidos como testemunhas de retidão... e a retidão prevalecerá sobre toda a Terra."
Conceito-chave: A "retidão" (righteousness / ṣədq em Ge'ez) não depende de ortodoxia religiosa, mas de integridade interior e ação compassiva.
B. CRÍTICA AOS "FARISEUS" ANTES DE JESUS
A crítica de Jesus aos fariseus (Mateus 23, citada no texto) não foi original — ela ecoa Enoque, texto que a comunidade judaica do Segundo Templo conhecia:
1 ENOQUE 94:6-8 (Primeira Epístola):
"Ai de vós que edificais vossas casas com o trabalho dos outros, e cujos materiais de construção são tijolos e pedras de pecado! Eu vos digo: não tereis paz."
"Ai de vós, ó ricos, pois confiaste em vossas riquezas, e sereis privados delas, porque não vos lembraste do Altíssimo nos dias de vossa abundância."
Paralelo direto:
- 1 Enoque 94:8 ⟷ Mateus 19:24 ("É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha...")
- A crítica de Jesus aos ricos hipócritas repete a de Enoque, escrita 300 anos antes.
1 ENOQUE 96:4-8:
"Ai de vós que praticais injustiça e violência e auxiliais a opressão!"
"Ai de vós, escribas mentirosos, pois vós distorceis as palavras da verdade e fazeis o mal parecer bem!"
Paralelo direto:
- 1 Enoque 96:4-8 ⟷ Mateus 23:2-4 ("Os fariseus se assentam na cadeira de Moisés... mas atam fardos pesados nos ombros dos homens")
- A crítica aos "escribas mentirosos" que "distorcem a verdade" é idêntica à crítica de Jesus aos fariseus que "coam mosquitos mas engolem camelos" (Mt 23:24).
1 ENOQUE 104:9-10:
"Ai de vós, pecadores, quando oprimis os justos, no dia da aflição, e queimais-os com fogo. Sereis recompensados segundo vossas obras."
Conceito: Os "pecadores" aqui não são prostitutas ou publicanos — são religiosos poderosos que oprimem.
C. PARÁBOLA DO BOM SAMARITANO = JUBILEUS
A parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37, citada no texto) encontra seu precedente conceitual no Livro dos Jubileus:
JUBILEUS 20:2-9 (Testamento de Abraão):
"Amai-vos uns aos outros, e cada homem tenha misericórdia de seu irmão... e não cobiçeis nada que pertença a vosso irmão... Porque se fizerdes isto, vivereis."
"E não vos aparteis de vosso irmão na sua aflição, mas ajudai-o em tudo."
Conexão: A ênfase em ajudar ativamente o próximo aflito — independentemente de ortodoxia religiosa — é o núcleo da parábola do Samaritano. O Livro dos Jubileus já ensinava isso 200 anos antes de Cristo.
JUBILEUS 36:7-8 (Sobre compaixão prática):
"E serás bendito entre todas as nações da Terra... porque praticas justiça e retidão sobre a Terra."
Conceito-chave: "Justiça e retidão" não dependem de genealogia (Abraão/Jacó) ou ortodoxia religiosa — podem ser praticadas por "gentios".
D. FARISEU vs. PUBLICANO = ENOQUE
A Parábola do Fariseu e do Publicano (Lucas 18:9-14, citada no texto) já aparece conceitualmente em 1 Enoque:
1 ENOQUE 63:1-10 (Julgamento dos Reis e Poderosos):
"Naqueles dias, os reis e os poderosos que possuem a Terra confessar ão seus pecados... e dirão: 'Não nos foi dada oportunidade de arrependimento, para que abandonássemos nossas vãs ações e nos humilhássemos diante Dele.' "
Mas eles não se humilharam enquanto viviam.
Paralelo:
- Fariseu em Lucas 18:11-12: "Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens..."
- Publicano em Lucas 18:13: "Ó Deus, sê propício a mim, pecador" (humildade)
- 1 Enoque 63: Os poderosos religiosos não se humilharam enquanto viviam, só no julgamento final — tarde demais.
1 ENOQUE 108:7 (novamente):
"Agora eu juro aos justos: Por Sua grande glória e honra, pelos humildes de coração eu estabeleci minha luz."
Conceito: Deus prefere os "humildes de coração" (publicano) aos "orgulhosos de ortodoxia" (fariseu).
E. INSIGNIFICÂNCIA CÓSMICA vs. SIGNIFICADO LOCAL
O paradoxo apresentado no texto — de que somos insignificantes no universo infinito mas essenciais localmente — encontra expressão direta na seção astronômica de 1 Enoque:
1 ENOQUE 72-82 (Livro dos Luminares Celestes):
Enoque descreve:
- Movimentos do Sol (72:2-37)
- Movimentos da Lua (73-74)
- Estrelas e portais dos céus (75-79)
- A vastidão do cosmos (80-82)
1 ENOQUE 81:1-2:
"E ele me disse: 'Enoque, observa as tábuas dos céus, e lê o que está escrito nelas, e marca cada fato individual.' E eu observei as tábuas dos céus, e li tudo que estava escrito, e entendi tudo, e li o livro de todos os atos dos homens... pois cada ação humana e cada coisa que será feita está escrita diante Dele para todas as gerações."
Paradoxo idêntico ao do texto:
- Vastidão cósmica: "Observa as tábuas dos céus... tudo que há no cosmos"
- Importância de cada ato individual: "Cada ação humana está escrita... para todas as gerações"
Conclusão: Mesmo num universo infinito, cada ação local importa cosmicamente. Este é o conceito de "Hemingway etíope" — "se você conhece uma aldeia, você conhece o universo".
1 ENOQUE 100:10-11:
"E agora eu sei este mistério: que muitos pecadores alterarão e distorcerão as palavras da verdade... mas quando escreverem corretamente todas as minhas palavras em suas línguas... não mudarão nem omitirão nada das minhas palavras, mas escreverão tudo corretamente."
Ironia histórica: O Ocidente "mudou e omitiu" 1 Enoque do cânon. A Etiópia o preservou intacto. Enoque profetizou sua própria exclusão e preservação.
F. JESUS CONHECIA ENOQUE
PROVA NO NOVO TESTAMENTO CANÔNICO:
JUDAS 1:14-15 (Epístola de Judas, canônica):
"Profetizou também a respeito destes Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: 'Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos, para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios...'"
Este versículo CITA DIRETAMENTE 1 ENOQUE 1:9:
"Eis que Ele vem com dez mil de seus santos para executar julgamento sobre todos, e destruir todos os ímpios."
Conclusão:
- Judas (Novo Testamento canônico) cita 1 Enoque (apócrifo no Ocidente) como profecia válida.
- Isso prova que a comunidade cristã primitiva considerava 1 Enoque escritura legítima.
- Jesus, crescendo nessa tradição, conhecia e valorizava Enoque.
Implicação: A crítica radical de Jesus aos fariseus não era inovação, mas continuação da tradição profética de Enoque — tradição que o Ocidente excluiu, mas a Etiópia preservou.
III. POR QUE A IGREJA OCIDENTAL EXCLUIU ESSES TEXTOS?
Razões Históricas:
Concílio de Laodiceia (363 d.C.): Restrição a textos gregos/hebraicos; Enoque só existia completo em Ge'ez.
São Jerônimo (347-420 d.C.): Ao traduzir a Vulgata Latina, excluiu livros não presentes no cânon hebraico rabínico de Jamnia (90 d.C.).
Teologia da substituição: Textos que enfatizavam retidão prática sobre ortodoxia doutrinal eram perigosos para uma Igreja institucionalizada que dependia de ortodoxia para controle.
1 Enoque era "radicalmente igualitário":
- Criticava ricos opressores (Cap. 94-104);
- Validava "gentios justos" (implícito em 108:7-8);
- Profetizava que "escribas mentirosos" distorceriam a verdade (96:8);
- Ameaçava o poder eclesiástico.
Razões Teológicas:
AGOSTINHO DE HIPONA (354-430 d.C.):
Argumentou que 1 Enoque era "demasiado antigo para ser confiável" e que "anjos caindo e gerando gigantes" (1 En 6-11) era "fabuloso demais".
Ironia: Agostinho aceitou Gênesis 6:1-4 (que fala exatamente disso), mas rejeitou 1 Enoque que explicava a mesma passagem.
IV. A ETIÓPIA PRESERVOU O QUE ROMA ESQUECEU
Manuscritos Existentes de 1 Enoque:
Ge'ez (Etíope): ~15 manuscritos completos (sécs. XV-XVIII), baseados em originais do séc. IV-VI d.C.
Aramaico (Qumran/Mar Morto): Fragmentos de 11 cópias (séc. I a.C. - I d.C.), provando que 1 Enoque era lido por judeus da época de Jesus.
Grego: Fragmentos apenas (Códice Panopolitano, séc. V-VI).
Latim: Apenas Cap. 1:9 (citado por Padres da Igreja).
Conclusão: Se não fosse a Etiópia, 1 Enoque teria sido perdido após os fragmentos de Qumran (descobertos só em 1947).
V. CONEXÃO COM O ARGUMENTO CENTRAL DO TEXTO
Tese do presente texto:
- Sinceridade compassiva importa mais que ortodoxia religiosa ou ideológica.
- Ateus sinceros podem ser moralmente superiores a crentes hipócritas.
- Ação local tem significado cósmico, mesmo num universo infinito.
- Padre Anselmo e Vandão — inimigos ideológicos — concordam no essencial: cuidar da aldeia com moções cardíacas retas.
Fundamento na Bíblia Etíope:
1 Enoque 108:7-8: "Aquele que não conhece a Lei mas age com retidão" > "aquele que conhece a Lei mas transgride"
- ⟹ Vandão (ateu compassivo) > fariseu hipócrita.
1 Enoque 94-104: Crítica aos "ricos opressores" e "escribas mentirosos"
- ⟹ Jesus repete essa crítica em Mateus 23.
Jubileus 20, 36: "Cada homem tenha misericórdia de seu irmão"
- ⟹ Parábola do Bom Samaritano.
1 Enoque 81:2: Vastidão cósmica + registro de cada ação humana
- ⟹ "Insignificantes cosmicamente, essenciais localmente".
Conclusão Teológica:
O argumento deste texto — considerado "radical" ou "heterodoxo" por algumas leituras católicas/protestantes — é na verdade uma tradição cristã primitiva e pré-cristã, preservada pela Igreja Ortodoxa Etíope mas esquecida/suprimida pela Igreja Ocidental.
Jesus não estava inovando ao criticar fariseus e validar pecadores sinceros. Ele estava ecoando Enoque.
VI. IMPLICAÇÃO PARA A "QUESTÃO TEOLÓGICO-ECONÔMICA DE SANTO ANTÔNIO DO VALE"
Diálogo implícito:
- Padre Anselmo representa a tradição ocidental (Agostinho, Tomás, Inácio).
- Vandão representa o humanismo secular (Marx, Feuerbach).
- Ambos descobrem que concordam no essencial: sinceridade e compaixão.
O que faltava no diálogo original:
A consciência de que essa convergência não é acidental nem moderna — é a recuperação de uma tradição esquecida, preservada na Bíblia Etíope.
Novo versículo para Padre Anselmo citar:
Quando Vandão diz: "Então Jesus criticava mais os religiosos hipócritas que os pecadores sinceros?"
Padre Anselmo poderia responder:
"Sim. E não foi o primeiro. Enoque disse isso 300 anos antes: 'Melhor é aquele que não conhece a Lei mas age com retidão' (1 En 108:7). A Igreja Ocidental excluiu Enoque do cânon. A Etiópia o preservou. Talvez eles entendessem melhor que nós."
VII. REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES SOBRE A BÍBLIA ETÍOPE
Traduções de 1 Enoque:
CHARLES, R.H. (tradutor). The Book of Enoch or 1 Enoch. Oxford: Clarendon Press, 1912.
- Primeira tradução acadêmica do Ge'ez para o inglês.
- Disponível em: http://www.sacred-texts.com/bib/bep/index.htm
ISAAC, Ephraim (tradutor). "1 (Ethiopic Apocalypse of) Enoch". In: CHARLESWORTH, James H. (ed.). The Old Testament Pseudepigrapha, Vol. 1: Apocalyptic Literature and Testaments. New York: Doubleday, 1983, p. 5-89.
- Tradução acadêmica padrão com notas críticas.
NICKELSBURG, George W.E.; VANDERKAM, James C. 1 Enoch: A New Translation. Minneapolis: Fortress Press, 2004.
- Tradução com base em manuscritos aramaicos (Qumran) e Ge'ez.
KNIBB, Michael A. The Ethiopic Book of Enoch: A New Edition in the Light of the Aramaic Dead Sea Fragments. 2 vols. Oxford: Clarendon Press, 1978.
- Edição crítica comparando Ge'ez e Qumran.
Traduções do Livro dos Jubileus:
VANDERKAM, James C. The Book of Jubilees. Leuven: Peeters, 1989. (CSCO 510-511, Scriptores Aethiopici 87-88).
CHARLES, R.H. (tradutor). The Book of Jubilees, or the Little Genesis. London: Adam & Charles Black, 1902.
Sobre o Cânon Etíope:
COWLEY, Roger W. Ethiopian Biblical Interpretation: A Study in Exegetical Tradition and Hermeneutics. Cambridge: Cambridge University Press, 1988.
COWLEY, Roger W. The Traditional Interpretation of the Apocalypse of St John in the Ethiopian Orthodox Church. Cambridge: Cambridge University Press, 1983.
ULLENDORFF, Edward. Ethiopia and the Bible. London: Oxford University Press, 1968.
- Estudo sobre a relação histórica entre Etiópia e textos bíblicos.
BEYLOT, Robert (ed.). La Bible éthiopienne. Paris: Éditions du Cerf, 2008.
Estudos sobre 1 Enoque no Cristianismo Primitivo:
NICKELSBURG, George W.E. 1 Enoque 1: A Commentary on the Book of 1 Enoch, Chapters 1-36; 81-108. Minneapolis: Fortress Press, 2001.
VANDERKAM, James C. Enoch: A Man for All Generations. Columbia: University of South Carolina Press, 1995.
SACCHI, Paolo. Jewish Apocalyptic and Its History. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1990.
- Análise do contexto histórico de 1 Enoque.
Sobre a Exclusão de Enoque do Cânon Ocidental:
MCDONALD, Lee Martin; SANDERS, James A. (eds.). The Canon Debate. Peabody: Hendrickson, 2002.
- Capítulo sobre "Books Excluded from the Canon" explica por que 1 Enoque foi rejeitado.
METZGER, Bruce M. The Canon of the New Testament: Its Origin, Development, and Significance. Oxford: Clarendon Press, 1987.
SUNDBERG, Albert C. "The Bible Canon and the Christian Doctrine of Inspiration". Interpretation 29 (1975): 352-371.
VIII. CITAÇÃO FINAL: ENOQUE SOBRE SINCERIDADE
1 ENOQUE 108:10-13 (Último capítulo):
"E agora, meus filhos, amai a verdade e ela vos guardará. Ouvi as palavras do Santo e Justo... e andai no caminho da retidão, e não andeis no caminho da maldade... pois os que andam no caminho da retidão herdarão a vida eterna."
Tradução livre para o contexto gaúcho:
"Cuidem da aldeia com sinceridade, e a aldeia cuidará de vocês. Porque quem conhece uma aldeia, conhece o mundo. E agir com retidão em Santo Antônio do Vale é agir com retidão no universo inteiro."
APÊNDICE
COMPARATIVO: BÍBLIA ETÍOPE ⟷ EVANGELHOS ⟷
"SANTO ANTÔNIO DO VALE"
TABELA I: SINCERIDADE >
ORTODOXIA
|
BÍBLIA ETÍOPE |
EVANGELHOS CANÔNICOS |
DIÁLOGO NO TEXTO |
|
1 ENOQUE 108:7-8 |
LUCAS 18:9-14 (Fariseu e Publicano) |
(Vandão pergunta): |
|
1 ENOQUE 91:7 |
MATEUS 5:20 |
|
|
1 ENOQUE 108:10 |
JOÃO 14:6 |
|
TABELA II: CRÍTICA AOS
"FARISEUS" (RELIGIOSOS HIPÓCRITAS)
|
BÍBLIA ETÍOPE (PRÉ-CRISTO) |
EVANGELHOS (ÉPOCA DE CRISTO) |
DIÁLOGO NO TEXTO |
|
1 ENOQUE 94:6-8 |
MATEUS 19:24 |
|
|
1 ENOQUE 96:4-8 |
MATEUS 23:2-4, 23-24 |
|
|
1 ENOQUE 104:9-10 |
MATEUS 23:29-33 |
|
|
1 ENOQUE 103:9-15 |
MATEUS 23:23 |
|
TABELA III: PARÁBOLA DO BOM
SAMARITANO (COMPAIXÃO > ORTODOXIA)
|
BÍBLIA ETÍOPE |
EVANGELHOS |
DIÁLOGO NO TEXTO |
|
JUBILEUS 20:2-9 (Testamento de Abraão) |
LUCAS 10:30-37 (Bom Samaritano) |
|
|
JUBILEUS 36:7-8 |
LUCAS 10:37 |
|
|
1 ENOQUE 108:8 |
LUCAS 10:28 |
|
TABELA IV: FARISEU vs. PUBLICANO
(HUMILDADE > ORGULHO RELIGIOSO)
|
BÍBLIA ETÍOPE |
EVANGELHOS |
DIÁLOGO NO TEXTO |
|
1 ENOQUE 63:1-10 (Julgamento dos Reis) |
LUCAS 18:9-14 (Fariseu e Publicano) |
|
|
1 ENOQUE 108:7 |
MATEUS 5:3 |
|
|
1 ENOQUE 5:7 |
LUCAS 18:11-12 |
|
TABELA V: JESUS COMENDO COM
PECADORES (INCLUSÃO > PUREZA RITUAL)
|
BÍBLIA ETÍOPE |
EVANGELHOS |
DIÁLOGO NO TEXTO |
|
JUBILEUS 7:20 (sobre hospitalidade) |
MATEUS 9:10-13 |
|
|
1 ENOQUE 108:7 |
LUCAS 7:36-50 (Mulher Pecadora) |
|
|
JUBILEUS 20:9 |
JOÃO 8:7-11
(Mulher Adúltera) |
|
TABELA VI: INSIGNIFICÂNCIA
CÓSMICA vs. SIGNIFICADO LOCAL
|
BÍBLIA ETÍOPE |
NOVO TESTAMENTO |
DIÁLOGO NO TEXTO |
|
1 ENOQUE 72-82 (Livro dos Luminares) |
SALMO 8:3-4
(citado no NT) |
|
|
1 ENOQUE 81:1-2 |
MATEUS 10:29-31 |
|
|
1 ENOQUE 104:1 |
MATEUS 6:10 |
|
TABELA VII: AÇÃO > DISCURSO /
OBRAS > FÉ VAZIA
|
BÍBLIA ETÍOPE |
NOVO TESTAMENTO |
DIÁLOGO NO TEXTO |
|
1 ENOQUE 91:18-19 |
MATEUS 7:16-20 |
|
|
JUBILEUS 36:8 |
TIAGO 2:14-17 |
|
|
1 ENOQUE 94:4 |
MATEUS 23:3 |
|
TABELA VIII: ENOQUE PROFETIZA SUA
PRÓPRIA EXCLUSÃO
|
BÍBLIA ETÍOPE |
NOVO TESTAMENTO |
IMPLICAÇÃO HISTÓRICA |
|
1 ENOQUE 100:10-11 |
JUDAS 1:14-15 (citando diretamente 1 Enoque) |
IRONIA HISTÓRICA: |
|
1 ENOQUE 104:12-13 |
2 TIMÓTEO 4:3-4 |
O Ocidente considerou Enoque "fábula"; |
TABELA IX: SÍNTESE FINAL —
DIÁLOGO ANSELMO/VANDÃO À LUZ DE ENOQUE
|
PERSONAGEM |
ARGUMENTO NO TEXTO |
FUNDAMENTO EM ENOQUE/JUBILEUS |
PARALELO NOS EVANGELHOS |
|
Vandão (ateu
sincero) |
"Sou
comunista ateu, mas cuido da minha comunidade com sinceridade." |
1 Enoque 108:7-8: |
Lucas 10:30-37: |
|
Padre Anselmo (crente sincero) |
"Sou
católico, mas reconheço que Jesus criticava religiosos hipócritas." |
1 Enoque 94-104: |
Mateus 23: |
|
CONVERGÊNCIA |
"Ambos
concordam: sinceridade e compaixão importam mais que ortodoxia." |
1 Enoque 91:7: |
Mateus 7:16: |
|
CONTEXTO LOCAL |
"Em
Santo Antônio do Vale, cada ação importa infinitamente." |
1 Enoque 81:2: |
Mateus 10:29-31: |
|
CRÍTICA AOS HIPÓCRITAS |
"Religiosos
hipócritas são piores que pecadores sinceros." |
1 Enoque 96:8: |
Mateus 23:23-24: |
|
INCLUSÃO RADICAL |
"Jesus
comia com prostitutas e defendia pecadores." |
Jubileus 7:20: |
Mateus 9:10-13: |
CONCLUSÃO DO APÊNDICE
O que este apêndice demonstra:
- O
argumento central do texto — de que sinceridade compassiva importa
mais que ortodoxia religiosa ou ideológica — não é invenção moderna,
mas sim uma tradição pré-cristã e cristã primitiva preservada na Bíblia
Etíope (especialmente em 1 Enoque e Jubileus).
- Jesus
não estava inovando ao criticar fariseus e validar pecadores
sinceros. Ele estava ecoando Enoque, texto escrito 300 anos
antes e conhecido pela comunidade judaica do Segundo Templo (provado
pelos manuscritos de Qumran/Mar Morto).
- A
Igreja Ocidental excluiu esses textos justamente porque eram teologicamente
perigosos: validavam sinceridade sobre ortodoxia, criticavam opressão
religiosa e econômica, e defendiam que "gentios justos"
podiam ser superiores a "crentes hipócritas".
- A
Etiópia preservou o que Roma esqueceu — e agora, ao reler o diálogo entre Padre
Anselmo e Vandão à luz de 1 Enoque e Jubileus, descobrimos
que ambos estão operando com uma ética profundamente enraizada na
tradição bíblica etíope, mesmo sem saber.
- Implicação
teológica: O
"ateísmo compassivo" de Vandão e o "cristianismo
inclusivo" de Padre Anselmo convergem porque ambos
recuperam — consciente ou inconscientemente — a tradição esquecida
de Enoque:
"Melhor é aquele que não conhece a Lei mas age
com retidão, do que aquele que conhece toda a Lei mas transgride." (1 Enoque 108:7-8)