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Escritório de Advocacia - Dra. Clarice Beatriz da Costa Söhngen e Ingo Dietrich Söhngen

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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

 


"Salomão e Schakespeare  & Bangalore"


 

Bom dia, caros bacharéis. Ou boa tarde. Ou boa noite, dependendo de quando vocês estiverem assistindo a gravação desta aula porque perderam o horário. Já comecem a treinar pontualidade, que juiz atrasado é motivo de piada em fórum.

Mas enfim, sejam bem-vindos. Parabéns por terem chegado até aqui. Vocês estudaram Direito Civil com seus 2.046 artigos. Sobreviveram ao Processo Penal e suas nulidades absolutas relativas absolutamente relativas. Decoraram que "a posse é exercício de fato dos poderes inerentes à propriedade" sem entender direito o que isso significa. E agora estão aqui, olhando para mim, sonhando com uma toga preta, uma cadeira alta e aquele martelinho que faz "pá-pá" quando você manda calar a boca do advogado tagarela.

Eu entendo. O sonho de ser juiz é lindo. Realmente é. Vocês vão ter estabilidade, salário digno, respeito social e a oportunidade de fazer justiça de verdade. Mas hoje eu preciso falar com vocês sobre algo que ninguém fala nas aulas de Direito Constitucional: o dia em que vocês vestirem aquela toga, vocês deixarão de ser gente comum para se tornarem representantes do Estado, da Justiça e, querendo ou não, de algo maior que vocês mesmos.

E aí, meus amigos, começa o perigo.

Porque no momento em que vocês subirem naquela bancada e olharem para baixo — literalmente para baixo, porque juiz fica mais alto que todo mundo — algo muito sutil vai começar a acontecer na cabeça de vocês. Vocês vão começar a achar que são especiais. Que merecem privilégios. Que, afinal de contas, trabalham muito, estudaram muito, então por que não podem aceitar aquele convite para jantar num restaurante caro? Por que não podem viajar num jatinho de um amigo? Por que não podem ganhar um relógio bonito de presente?



E é aí que tudo começa a desandar. Porque o luxo, meus queridos futuros magistrados, é o veneno mais doce que existe. Ele não mata na primeira dose. Ele te seduz, te abraça, te faz sentir importante. E quando você percebe, já vendeu sua alma sem nem saber o preço.

Então hoje eu vou contar para vocês três histórias. A primeira é de um rei que tinha tudo para dar certo e estragou tudo. A segunda é de um conjunto de princípios éticos internacionais que quase ninguém lê mas todo mundo deveria tatuar no braço. E a terceira é sobre o Brasil contemporâneo, onde alguns magistrados decidiram que ética é coisa para os outros, não para eles.

E no final, vocês vão escolher que tipo de juiz querem ser. Porque, acreditem, essa escolha vai definir não só a carreira de vocês, mas o tipo de pessoa que vocês vão se tornar.


CAPÍTULO 1: SALOMÃO — A BIOGRAFIA MAIS ÚTIL QUE VOCÊS LERÃO

Vamos começar há uns três mil anos atrás, no Oriente Médio, com um jovem chamado Salomão que acabara de herdar um reino complicadíssimo do pai, o rei Davi. Salomão tinha tudo para fracassar. Era jovem, inexperiente, e estava cercado de intrigas políticas, ameaças externas e uma população que esperava liderança.

Aí aconteceu algo extraordinário. Deus apareceu para ele num sonho e disse: "Pede o que quiseres, e eu te darei." Imaginem a cena. O Criador do Universo oferecendo um cheque em branco. Salomão podia ter pedido qualquer coisa. Dinheiro infinito. Imortalidade. Um império que se estendesse até a China. Ingresso vitalício para a Copa do Mundo.

Mas sabe o que ele pediu? Ele disse: "Senhor, dá ao teu servo um coração compreensivo para julgar o teu povo, para discernir entre o bem e o mal, porque quem poderia julgar este teu grande povo?"

Prestem atenção nessa frase. Ele não pediu poder. Ele pediu sabedoria para julgar. E mais: ele reconheceu sua própria limitação. "Quem sou eu para julgar?" Isso, meus amigos, é humildade epistêmica. É reconhecer que julgar pessoas é uma responsabilidade divina, não um privilégio pessoal.

E Deus ficou tão impressionado com o pedido que deu a ele não só sabedoria, mas também riqueza e honra. Mas prestem atenção: a riqueza veio como consequência da sabedoria, não como objetivo. Gravem isso.

Logo depois, Salomão teve que enfrentar seu primeiro caso difícil. Duas prostitutas apareceram no tribunal. Ambas tinham dado à luz recentemente. Uma das crianças morreu durante a noite. E agora as duas alegavam ser a mãe do bebê vivo. Não havia testemunhas. Não havia DNA. Não havia câmera de segurança. Nada.

Salomão olhou para as duas mulheres e disse: "Tragam-me uma espada." Todo mundo ficou perplexo. O que ele ia fazer? Ele disse: "Já que ambas alegam ser a mãe, vamos dividir a criança ao meio. Metade para cada uma."

Uma das mulheres disse: "Tudo bem, que seja assim. Se não é meu, também não será dela." A outra gritou desesperada: "Não! Dá o bebê para ela, mas não mata meu filho!"

Salomão imediatamente entregou a criança para a segunda mulher. Por quê? Porque ele usou psicologia, raciocínio lógico e empatia. Ele foi além da letra fria da lei. Ele entendeu comportamento humano. E a Bíblia diz que quando todo o Israel ouviu aquela sentença, o povo temeu o rei, porque viram que havia nele a sabedoria de Deus para fazer justiça.

Agora prestem atenção em alguns detalhes dessa história que conectam diretamente com o que vocês vão viver:

Primeiro: Salomão tratou duas prostitutas — mulheres marginalizadas, sem status social — com a mesma seriedade e dignidade que trataria dois nobres. Isso é o princípio da igualdade. Não importa quem está na sua frente. CEO de multinacional ou faxineira. Traficante ou empresário. Todos têm o mesmo direito a um julgamento digno.

Segundo: ele foi imparcial. Não privilegiou nenhuma das versões previamente. Ele ouviu, pensou e decidiu.

Terceiro: ele foi competente. Usou recursos que ia além do conhecimento técnico. Foi criativo, psicológico, humano.

E quarto: ele foi rápido e eficaz. Não pediu vista por seis meses. Não adiou a sessão dezessete vezes. Resolveu o problema.

Esse era o Salomão do auge. O Salomão sábio. O Salomão que entrou para a história como o juiz mais extraordinário que já existiu.

Mas aí começa o problema. Porque Salomão ficou famoso. Ficou rico. E ficou poderoso.

A Bíblia conta que ele recebia seiscentos e sessenta e seis talentos de ouro por ano. Não me perguntem quanto isso é em reais porque a inflação de três mil anos é complicada, mas é MUITO ouro. Ele construiu um trono de marfim revestido de ouro. Fez duzentos escudos de ouro batido só para decoração. Tinha uma frota de navios mercantes trazendo tesouros de lugares exóticos.

Agora façam um exercício mental comigo. Imaginem um juiz brasileiro contemporâneo que começa a viajar em jatinhos particulares. Que vai a eventos luxuosos em resorts. Que usa relógio Rolex de duzentos mil reais. E quando perguntam, ele diz: "Ah, mas foi presente de um amigo!"

Vocês acham que o povo vai pensar o quê? "Que juiz dedicado, merece mesmo essas regalias"? Ou vai pensar: "Esse aí está recebendo propina"?

Salomão parou de se perguntar: "Como isso vai parecer aos olhos do povo?" E quando você para de se fazer essa pergunta, você já começou a cair.

Mas a coisa piorou. Salomão começou a multiplicar mulheres. A Bíblia diz que ele teve setecentas esposas e trezentas concubinas. Alguém pode pensar: "Nossa, que mulherengo!" Mas não é isso. Cada casamento era uma aliança política. Cada esposa vinha de uma nação diferente. E muitas dessas nações eram inimigas de Israel ou tinham religiões incompatíveis.

Traduzindo para o mundo jurídico: Salomão criou conflitos de interesse. Ele se cercou de pessoas que tinham interesses políticos, econômicos e religiosos que comprometiam sua imparcialidade. Como ele ia julgar um caso envolvendo fenícios se tinha três esposas fenícias? Como ia decidir sobre comércio com o Egito se tinha parentesco com a família real egípcia?

E a Bíblia diz que, na velhice, essas mulheres perverteram o coração de Salomão. Ele começou a construir templos para deuses pagãos. O homem que tinha pedido sabedoria para julgar segundo a Lei de Deus agora estava queimando incenso para Astarote e Moloque.

E teve um detalhe que muita gente esquece: Salomão oprimiu o povo. Ele cobrava impostos pesadíssimos para sustentar todo aquele luxo. Colocou o povo em trabalhos forçados para construir seus palácios. E quando ele morreu, o povo foi até o filho dele, Roboão, e disse: "Seu pai fez pesado o nosso jugo. Agora alivia isso, pelo amor de Deus."

Ou seja, o juiz que deveria proteger o povo se tornou o opressor do povo.

E o resultado? O reino se dividiu logo depois da morte dele. Tudo que Salomão construiu desmoronou porque ele perdeu a legitimidade. O povo não aguentava mais.

Agora, existe um livro na Bíblia chamado Eclesiastes que muitos estudiosos acreditam ter sido escrito pelo próprio Salomão já velho, já desiludido, já arrependido. E o livro inteiro é uma grande lamentação. Ele diz: "Vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Eu me tornei grande, construí casas, plantei vinhas, fiz jardins, acumulei ouro e prata, tive mulheres, tive tudo... e olhei para tudo o que fiz, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito."

E no final do livro, ele dá o conselho que deveria ter seguido desde o começo: "De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos, porque isto é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo toda obra, até as que estão escondidas, sejam boas ou más."

Traduzindo: no final das contas, todo mundo presta contas. Salomão pensou que estava acima das regras. Que era especial demais. Que merecia privilégios. E pagou caro por isso.

Agora vocês devem estar pensando: "Professor, isso é história bíblica. O que isso tem a ver com a gente?"

Tudo. Tem tudo a ver.


INTERLÚDIO: SHAKESPEARE E A BALANÇA DA JUSTIÇA

Mas antes de prosseguirmos para os princípios éticos contemporâneos, preciso fazer uma pausa obrigatória. Porque não podemos falar de juízes, de justiça e de moralidade sem mencionar William Shakespeare e sua obra-prima jurídica: O Mercador de Veneza.

Vocês já leram essa peça? Se não leram, leiam. Porque nela está condensado um dos dilemas mais profundos que vocês enfrentarão como magistrados: o conflito entre a letra fria da lei e o espírito da justiça.

Vou resumir rapidamente a história para quem não conhece. Temos Bassanio, um jovem veneziano sem dinheiro que quer cortejar Pórcia, uma herdeira rica. Ele pede dinheiro emprestado ao amigo Antonio, um próspero mercador. Mas Antonio não tem dinheiro líquido no momento — toda sua fortuna está em navios no mar. Então eles vão até Shylock, um agiota judeu.

Shylock empresta o dinheiro, mas com uma condição bizarra no contrato: se Antonio não pagar no prazo, Shylock terá direito a extrair uma libra de carne do corpo de Antonio. Antonio, confiante que seus navios chegarão a tempo, assina o contrato.

Mas adivinhem? Os navios naufragam. Antonio não consegue pagar. E Shylock, que sofreu anos de humilhação e discriminação dos cristãos venezianos, resolve cobrar — literalmente — libra por libra.

O caso vai a julgamento. E aqui entra a genialidade de Shakespeare. Pórcia, disfarçada de jovem advogado chamado Baltasar, assume a defesa de Antonio. E ela não contesta a legalidade do contrato. Pelo contrário, ela reconhece que Shylock tem razão pela letra da lei.

Mas então ela faz um dos discursos mais brilhantes da literatura jurídica mundial. Ela diz:

"A qualidade da misericórdia não é forçada. Ela cai como a chuva suave do céu sobre a terra abaixo. É duplamente abençoada: abençoa aquele que dá e aquele que recebe. É mais poderosa nos mais poderosos, e fica melhor no trono de um monarca do que sua coroa. O cetro mostra a força do poder temporal, o atributo da majestade e reverência em que se assentam o medo e o temor dos reis. Mas a misericórdia está acima desse poder do cetro. Ela está entronizada no coração dos reis. É um atributo de Deus mesmo, e o poder terreno mais se aproxima de Deus quando a misericórdia tempera a justiça."

Prestem atenção nessas palavras: "o poder terreno mais se aproxima de Deus quando a misericórdia tempera a justiça."

Pórcia está dizendo que a lei sem humanidade é tirania. Que vocês, magistrados, não são simplesmente aplicadores mecânicos de códigos, mas intérpretes humanos de princípios de justiça.

Mas Shylock insiste. Ele quer sua libra de carne. Ele tem o contrato. Ele tem a lei do seu lado.

E então Pórcia inverte o jogo com um raciocínio jurídico brilhante. Ela diz: "Muito bem, Shylock. Você terá sua libra de carne. Mas o contrato não menciona sangue. Portanto, se você derramar uma única gota de sangue cristão ao cortar a carne, suas terras e bens serão confiscados pelo Estado de Veneza segundo a lei."

É impossível extrair carne sem derramar sangue. Shylock está juridicamente encurralado.

Mas antes de vocês aplaudirem, prestem atenção no que acontece depois. Pórcia não para aí. Ela vira para Shylock e diz que, como estrangeiro que atentou contra a vida de um cidadão veneziano, metade de seus bens vai para Antonio, a outra metade para o Estado, e sua própria vida fica à mercê do Doge. E mais: Shylock é forçado a se converter ao cristianismo.

E aqui está o dilema moral que Shakespeare nos deixa: Pórcia salvou Antonio, mas destruiu Shylock. Ela usou a lei para fazer justiça — ou para perpetuar injustiça?

Porque vejam bem: Shylock era um homem amargo, sim. Vingativo, sim. Mas ele havia sofrido décadas de discriminação, humilhação e violência. Antonio mesmo cuspia nele, chamava-o de cão, chutava-o em público. E quando Shylock tenta usar a própria lei dos cristãos contra eles, é esmagado pela mesma lei.

Shakespeare nos força a perguntar: quem é o verdadeiro vilão aqui? O agiota judeu que quer vingança? Ou a sociedade cristã que o oprimiu por tanto tempo que transformou um homem em monstro?

E o que isso tem a ver com vocês, futuros juízes?

Tudo.

Porque vocês vão se deparar com "Shylocks" o tempo todo. Pessoas amarguradas. Vingativas. Que querem usar a lei para ferir outros. E vocês terão que decidir: aplico a lei mecanicamente, ou interpreto a lei à luz da justiça?

Vocês vão se deparar com contratos legalmente válidos mas moralmente questionáveis. Com cláusulas abusivas disfarçadas de autonomia da vontade. Com "libras de carne" modernas: juros extorsivos, multas desproporcionais, penhoras que deixam famílias na miséria.

E vocês terão que escolher se vão ser o juiz que diz: "O contrato é válido, dura lex sed lex" — ou se vão ser o juiz que pergunta: "Mas onde está a justiça nisso?"

Shakespeare também nos ensina sobre a hipocrisia institucional. Veneza era uma república sofisticada, rica, com leis elaboradas. Mas essas leis protegiam alguns e oprimiam outros. Shylock descobriu isso da pior maneira.

Da mesma forma, o Brasil contemporâneo tem uma Constituição linda, cheia de direitos fundamentais, garantias processuais, princípios de dignidade humana. Mas na prática? Os pobres esperam anos por uma sentença. Os ricos contratam batalhões de advogados para procrastinar processos indefinidamente. Algumas pessoas têm toda a lei ao seu favor — outras são esmagadas pela mesma lei.

E mais uma lição crucial: Pórcia só conseguiu salvar Antonio porque se disfarçou de homem. Uma mulher não podia advogar naquela época. Ela teve que fingir ser advogado masculino para ser ouvida. Shakespeare, no século XVI, já denunciava a discriminação de gênero no sistema de justiça.

Quantas "Pórcias" existem hoje que não são ouvidas porque são mulheres, porque são negras, porque são pobres, porque são transgênero?



Salomão tratou duas prostitutas com dignidade. Pórcia teve que se disfarçar para ser levada a sério. E vocês, magistrados do século XXI, vão perpetuar ou combater essas injustiças estruturais?

O Mercador de Veneza nos lembra de algo fundamental: a lei é uma ferramenta. Pode ser usada para libertar ou para oprimir. Para proteger ou para destruir. Para fazer justiça ou para vingança institucionalizada.

E vocês, ao vestirem a toga, herdam essa responsabilidade terrível e maravilhosa: decidir para que lado a balança penderá.

Então quando vocês lerem um contrato aparentemente válido, lembrem de Shylock e sua libra de carne.

Quando vocês virem alguém usando a lei para vingança pessoal, lembrem que a misericórdia deve temperar a justiça.

E quando vocês forem tentados a aplicar a lei mecanicamente sem olhar para o contexto humano, lembrem das palavras de Pórcia: "o poder terreno mais se aproxima de Deus quando a misericórdia tempera a justiça."

Salomão, no auge, tinha essa sabedoria. Ele foi além da letra da lei para encontrar a verdade e a justiça. Mas Salomão velho perdeu isso. E o resultado foi catastrófico.

Não sejam o Salomão velho. Sejam o Salomão jovem. Sejam Pórcia usando a inteligência para salvar, não para destruir.

Agora sim, vamos aos Princípios de Bangalore.


CAPÍTULO 2: OS PRINCÍPIOS DE BANGALORE — O CÓDIGO QUE NINGUÉM LÊ MAS TODOS DEVERIAM

Entre 2001 e 2002, a Organização das Nações Unidas reuniu juízes do mundo inteiro e criou um documento chamado Princípios de Bangalore sobre Conduta Judicial. Por que fizeram isso? Porque descobriram uma verdade simples e assustadora: juízes corruptos, parciais, incompetentes ou arrogantes destroem democracias.

Não são os generais que dão golpe. Não são os políticos desonestos. São os juízes que deixam de fazer justiça. Porque quando o Judiciário perde legitimidade, todo o sistema desmorona.

Então esses juristas do mundo inteiro — da Índia, da África do Sul, do Canadá, da Europa, de todos os lugares — se sentaram e perguntaram: o que faz um bom juiz? E criaram seis princípios fundamentais.

Vou explicar cada um deles para vocês, não com juridiquês chato, mas com exemplos reais, alguns engraçados, outros terríveis.


 

Primeiro princípio: independência. O que significa isso? Significa que você decide com base na lei e nos fatos, não em pressões externas. Não importa se o governador te ligou pedindo um favor. Não importa se seu tio é sócio de uma das partes. Não importa se o advogado é seu amigo de infância. Você decide conforme a justiça.

Mas atenção: independência não significa que você está acima da lei. Muita gente confunde independência com impunidade. Salomão se achava independente. O resultado foi desastre.

No Brasil, temos um problema sério com isso. O professor Conrado Hübner Mendes, que é um dos constitucionalistas mais respeitados do país, deu uma entrevista recentemente onde disse algo devastador: "A conduta individual dos ministros do Supremo Tribunal Federal está absolutamente sem controle."

Absolutamente. Sem. Controle.

Ele explicou que o STF se auto libertou de todas as amarras éticas. Não se subordina ao Conselho Nacional de Justiça em questões administrativas. Declarou que não precisa seguir o Código de Ética da Magistratura Nacional. Derrubou regras de suspeição. E o único controle que resta — o impeachment pelo Senado — segundo Hübner, nunca funcionou e nunca vai funcionar.

Ou seja, nós temos no topo do Judiciário brasileiro uma situação onde a independência virou isolamento. Onde a autonomia virou impunidade. E isso é exatamente o que aconteceu com Salomão. Ele era tão poderoso que ninguém conseguia controlá-lo. E quando isso acontece, o caráter começa a desmoronar.

O segundo princípio é imparcialidade. Vocês vão julgar com base nos fatos, não nas suas simpatias, antipatias, ideologia política ou time de futebol. E atenção: vocês devem evitar qualquer situação que possa ser percebida como comprometedora da imparcialidade.

Percebida. Entendem a diferença? Não importa se vocês são inocentes. Importa se vocês parecem inocentes.

Vou dar um exemplo real e hilariante. Um juiz brasileiro julgou um caso envolvendo defeito em ar-condicionado causado por uma lagartixa. E ele escreveu na sentença: "Uma lagartixa tem todo o direito de circular pelas paredes externas das casas à cata de mosquitos. Todo mundo sabe disso, e certamente também os engenheiros que projetam esses motores."

A sentença pode até estar juridicamente correta. Mas virou manchete nacional. Virou piada. Virou meme. Por quê? Porque na era digital, basta uma frase criativa para você perder credibilidade institucional.

A lição aqui não é "seja chato". A lição é: pense em como sua decisão será lida pelo público. Porque hoje tudo vaza. Tudo é printado. Tudo é compartilhado em grupos de WhatsApp.

O terceiro princípio é integridade. E aqui a coisa fica séria. Integridade significa que você é honesto sempre. Em público e em privado. No tribunal e em casa. Com a toga e sem a toga.

Os comentários oficiais aos Princípios de Bangalore dizem algo poderoso: um juiz não apenas prometeu servir aos ideais de justiça, mas prometeu incorporá-los. Sua conduta pessoal afeta todo o sistema judicial. Se você é desonesto na vida privada, você contamina a instituição.

Salomão tinha integridade no começo. Mas foi perdendo aos poucos. Primeiro aceitou presentes políticos. Depois construiu templos para outros deuses. Depois oprimiu o povo. Foi uma decadência progressiva. E o pior: ele provavelmente não percebeu quando cruzou a linha.

É por isso que o luxo é tão perigoso. Porque ele não te derruba de uma vez. Ele te seduz devagar. Você aceita um jantar. Depois uma viagem. Depois um presente. E quando você percebe, já está comprometido.

O quarto princípio é idoneidade, que em inglês se chama propriety. E esse é o mais perigoso na era digital. Idoneidade significa que você deve se comportar de modo digno e parecer digno, tanto no tribunal quanto na vida privada.

E aqui vem a pergunta que deve nortear toda a vida de vocês como magistrados: "Como isso vai parecer aos olhos do público?"

Ministro viaja em jatinho particular com advogados. Fotos vazam. Escândalo. A defesa foi: "Eram apenas amigos assistindo a um jogo de futebol." Mas o público pensou: "Corrupção."

Mesmo que fosse verdade, a aparência de impropriedade já estava criada. E na magistratura, aparência importa tanto quanto realidade.

Os Princípios de Bangalore são explícitos nisso: não basta ser ético, é preciso parecer ético. Porque a confiança pública no Judiciário depende da percepção de integridade.

E vivemos numa era de hipervisibilidade. Tudo que vocês fazem pode ser fotografado, gravado, compartilhado e viralizado em minutos. Não existe mais vida privada para magistrado. Aceitem isso ou escolham outra carreira.

O quinto princípio é igualdade. Vocês vão tratar o CEO da multinacional exatamente como tratam a faxineira da multinacional. Vocês vão dar a mesma atenção, o mesmo respeito, a mesma dignidade.

Salomão fez isso. Ele julgou duas prostitutas com a mesma seriedade que julgaria nobres. Aliás, a Bíblia nem menciona o nome delas. Só diz "duas prostitutas". Ou seja, eram mulheres sem status, sem poder, sem voz. E Salomão as ouviu como se fossem rainhas.

Mas no Brasil contemporâneo, segundo Hübner, temos uma situação absurda: existe um código de ética que se aplica a toda a magistratura, menos ao Supremo Tribunal Federal. Ou seja, juízes de primeiro grau são fiscalizados, punidos, controlados. Mas os ministros do STF se declararam acima disso.

Isso é o oposto da igualdade. É criar uma aristocracia judicial imune. E quando isso acontece, a confiança no sistema desmorona.

O sexto e último princípio é competência e diligência. Vocês precisam estudar, se atualizar, trabalhar com eficiência. E na era digital, isso significa dominar não só o Direito, mas também tecnologia.

Precisam saber usar o processo eletrônico. Precisam entender como funciona inteligência artificial. Precisam interpretar gráficos, metas, estatísticas. Precisam equilibrar conhecimento técnico com habilidades humanas como empatia, comunicação e gestão emocional.

E aqui tem um problema grave. A Resolução 332 do Conselho Nacional de Justiça, de 2020, estabeleceu que juízes brasileiros devem manter controle sobre ferramentas de inteligência artificial. A IA é auxiliar, não substituta.

Mas pesquisas recentes mostram que magistrados brasileiros não estão preparados para exercer esse controle. Não sabem como a IA funciona. Não entendem vieses algorítmicos. Não identificam quando o sistema está errado.

É como dar uma Ferrari para alguém que não sabe dirigir. O acidente é questão de tempo.

E tem mais: há casos de sistemas de IA que perpetuam racismo estrutural. Nos Estados Unidos, um algoritmo chamado COMPAS concluía que réus negros eram mais propensos a reincidir que brancos, mesmo quando o histórico criminal era igual. Se o juiz não souber identificar isso, vai chancelar discriminação com carimbo judicial.

Então competência não é luxo. É obrigação.


CAPÍTULO 3: O VENENO MAIS DOCE — COMO O LUXO DESTRÓI O CARÁTER

Agora vamos falar da parte que ninguém quer ouvir, mas que todo mundo precisa ouvir: o luxo e o dinheiro enfraquecem o caráter e fazem a ética balançar perigosamente.

Não estou inventando isso. É realidade histórica documentada. Salomão caiu por causa do luxo. Magistrados ao redor do mundo caíram por causa do luxo. E vocês, se não tomarem cuidado, também vão cair.

Por que o luxo corrompe? Deixem-me explicar.

Primeiro, porque cria sensação de excepcionalidade. Você começa a pensar: "Eu mereço isso. Afinal, sou juiz! Trabalho muito! Decido casos difíceis! Por que não posso ter algumas regalias?"

Salomão pensou assim. E acabou achando que estava acima das regras.

Os ministros do STF, segundo Hübner, pensam assim. Eles dizem: "Não precisamos de código de ética porque estamos acima de qualquer suspeita."

Mas ninguém está acima de suspeita. Ninguém é tão especial que não precise de controle. E quando você acha que está, você já começou a cair.

Segundo, o luxo te isola da realidade. Quando você viaja de jatinho enquanto o jurisdicionado pega ônibus lotado, quando você janta em restaurante de quinhentos reais o prato enquanto o réu não tem dinheiro para advogado, quando você usa relógio de duzentos mil reais enquanto julga pensão alimentícia de quinhentos reais... você perde a capacidade de julgar com empatia.

Você deixa de entender a vida das pessoas comuns. Você deixa de sentir o peso da injustiça. Você vira um burocrata distante aplicando leis abstratas sobre vidas concretas.

E terceiro, o luxo cria dependência psicológica. Você começa a achar que merece aquilo. E quando alguém questiona, você se ofende. "Como assim vão me fiscalizar? Eu sou juiz!"

Foi exatamente isso que aconteceu quando propuseram um código de ética para o Supremo. Ministros reagiram como se fosse uma afronta pessoal. Como se controle ético fosse insulto.

Vou dar exemplos concretos, alguns engraçados, outros assustadores.

Salomão teve seiscentos e sessenta e seis talentos de ouro por ano. Trono de marfim com ouro. Escudos decorativos de ouro. Frota de navios de luxo. E enquanto isso, o povo estava quebrando as costas com trabalho forçado e impostos abusivos.

No Brasil contemporâneo, tivemos casos de viagens em jatinhos particulares, eventos em resorts cinco estrelas, presentes caros de advogados com processos em andamento. E quando a imprensa denuncia, a reação é: "Estão perseguindo a magistratura!"

Não, ninguém está perseguindo. Estão cobrando decência básica.

Antes de aceitar qualquer benefício, luxo ou presente, façam o teste do espelho. Perguntem a si mesmos:

Se isso estiver na primeira página do jornal amanhã, vou ficar envergonhado? Se sim, recusem.

Eu aceitaria isso se fosse servidor público comum? Se não, recusem.

Meus filhos ficariam orgulhosos se soubessem? Se não, recusem.

Isso compromete minha aparência de imparcialidade? Se sim, recusem.

É simples assim. Mas é difícil assim. Porque o luxo sussurra no seu ouvido: "Você merece. Você é especial. Ninguém precisa saber."

Salomão ouviu esse sussurro. E perdeu o reino.

Ministros brasileiros ouviram esse sussurro. E estão perdendo legitimidade institucional.

Não ouçam esse sussurro.


CAPÍTULO 4: REDES SOCIAIS — O CAMPO MINADO INVISÍVEL

Agora vamos falar de um desafio que Salomão não teve, mas vocês terão: redes sociais.

Vocês precisam entender uma coisa que parece óbvia mas muita gente ignora: suas manifestações nas redes sociais não são privadas. Nunca foram. Nunca serão.

O Ministro Aloysio Corrêa da Veiga, em artigo sobre juízes e mídias sociais, alertou: as discussões nas redes sociais nunca são privadas. Elas se multiplicam milhares de vezes em fração de segundos.

Você posta uma opinião política hoje. Amanhã está sendo usada num processo de exceção de suspeição contra você.

Você curte uma foto de um advogado num iate. Semana que vem ele tem processo na sua vara. Adivinha o que a parte contrária vai alegar?

Você comenta sobre um caso que está julgando. Parabéns, você acabou de violar o princípio da reserva.

As Nações Unidas publicaram diretrizes em 2018 especificamente sobre juízes e redes sociais. E as regras são claras:

Identifique-se claramente. Não use pseudônimos enganosos.

Pergunte sempre: qual o impacto disso na dignidade judicial?

Não comente processos pendentes. Nem os seus, nem os de outros juízes.

Não deprecie decisões judiciais, mesmo que discorde.

Cuidado ao adicionar pessoas. Advogados com processos na sua vara. Partes. Investigadores.

E informe seus familiares. Porque se sua esposa postar algo comprometedor, não adianta dizer "não fui eu". Vocês são um núcleo familiar. A mancha respinga.

Deixem-me dar um exemplo hipotético, mas realista. Juiz vai a um churrasco com amigos. Bebe demais. Amigo posta vídeo engraçado no Instagram do juiz dançando bêbado. Vídeo viraliza.

Problema: não foi o juiz que postou. Não foi em horário de trabalho. Foi vida privada.

Mas o princípio da idoneidade diz: a conduta privada do juiz importa para a confiança pública. E a Resolução 305 do CNJ diz: magistrados devem agir com prudência, moderação e cautela.

Então a conclusão é simples: se você não quer explicar para a Corregedoria, não faça.

Ou melhor ainda: parta do princípio de que tudo será público. Porque na era do smartphone, tudo é potencialmente público.

E tem mais uma coisa. Vocês vão receber convites. Muitos convites. Para eventos. Para palestras. Para viagens. De instituições, de advogados, de empresas.

Antes de aceitar, perguntem: quem está pagando? Essa pessoa ou instituição tem interesse em decisões judiciais? Como isso vai parecer?

Porque pode ser que seja inocente. Pode ser que seja genuíno. Mas se parecer ruim, já era.

Salomão aceitou presentes políticos disfarçados de casamentos. E perdeu a imparcialidade.

Vocês não podem cometer o mesmo erro.


CAPÍTULO 5: INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL — O NOVO DESAFIO

Rapidamente, porque o tempo está acabando, precisamos falar sobre inteligência artificial.

A Resolução 332 do CNJ adotou o princípio europeu "sob controle do usuário". Isso significa que o juiz deve ter controle sobre a IA. A IA é ferramenta auxiliar, não substituta.

Mas como controlar o que você não conhece?

Magistrados brasileiros, segundo pesquisas, não sabem como a IA funciona. Não entendem vieses algorítmicos. Não sabem quando o sistema está errado.

E aí tem um problema grave. Sistemas de IA podem perpetuar preconceitos. Podem discriminar por raça, gênero, classe social. E se o juiz não souber identificar isso, vai aplicar injustiça com carimbo de eficiência.

Então a competência, que é o sexto princípio de Bangalore, inclui agora competência tecnológica. Vocês precisam estudar. Precisam entender. Precisam controlar as ferramentas que usam.

Porque se não controlarem, as ferramentas vão controlar vocês.


CAPÍTULO 6: O QUE FAZER COM TUDO ISSO?

Estamos chegando ao final. E vocês devem estar pensando: "Professor, você pintou um quadro terrível. Como vou conseguir ser juiz sem cair nessas armadilhas?"

A resposta é simples, mas não é fácil.

Vocês precisam lembrar todos os dias por que escolheram essa carreira. Não foi pelo dinheiro. Não foi pelo status. Foi para fazer justiça.

Quando vocês subirem naquela bancada, lembrem do jovem Salomão. Ele pediu sabedoria para julgar, não poder para impressionar. Ele reconheceu que era jovem e inexperiente. Ele tratou prostitutas com dignidade.

Lembrem de Pórcia em O Mercador de Veneza. Ela nos ensinou que o poder terreno mais se aproxima de Deus quando a misericórdia tempera a justiça. Que a lei é ferramenta, pode libertar ou oprimir, e vocês escolherão para que lado usá-la.

E lembrem do velho Salomão. Ele deixou o luxo corromper seu caráter. Ele se isolou das críticas. Ele oprimiu o povo que deveria proteger. E no final da vida, ele olhou para trás e disse: "Vaidade de vaidades. Tudo foi vaidade."

Vocês não querem terminar a carreira assim. Ninguém quer.

Então aqui vão os conselhos práticos:

Nunca aceitem presente que teriam vergonha de declarar publicamente.

Perguntem sempre: como isso vai parecer aos olhos do público? Não importa se vocês são inocentes. Importa se parecem inocentes.

Tratem o miserável e o milionário com a mesma dignidade. Se Salomão tratou prostitutas assim, vocês não têm desculpa.

Estudem sempre. Direito muda. Tecnologia muda. Sociedade muda. Vocês têm que mudar também.

Nas redes sociais: prudência, moderação e cautela. Se tiverem dúvida, não postem.

O luxo é veneno. Não provem. Uma viagem de jatinho hoje pode ser sua carta de demissão amanhã.

Ouçam críticas. Sempre. Quando vocês pararem de ouvir, vocês viram o STF: surdo e indiferente, segundo Hübner.

Lembrem que vocês não são especiais. Vocês são servidores públicos. A toga é emprestada. Quando se aposentarem, vocês a devolvem.

Integridade em privado é integridade em público. Não existem duas versões de vocês. Sejam uma pessoa só.

E no final, façam a única pergunta que realmente importa: eu fiz justiça ou apenas apliquei a lei?

Porque aplicar lei sem justiça é técnica. Fazer justiça com a lei é magistratura.


ENCERRAMENTO: A ESCOLHA É DE VOCÊS

Vocês podem ser o Salomão jovem. Humilde, competente, íntegro, lembrado como sábio.

Ou podem ser o Salomão velho. Arrogante, corrupto, surdo a críticas, responsável pela divisão do reino.

Podem ser o ministro sem controle, modelo brasileiro atual, segundo Hübner: absolutamente sem controle, surdo a críticas, auto libertado de amarras éticas, contribuindo para crise institucional. Sendo parte do problema quando deveria ser parte da solução.

Podem ser o juiz da lagartixa. Tecnicamente correto, mas virando meme nacional, perdendo credibilidade por falta de idoneidade aparente.

Ou podem ser o juiz de Bangalore. Independente com responsabilidade. Imparcial e empático. Íntegro em público e em privado. Digno e humano. Igual com todos. Competente e sempre aprendendo.

Podem ser Pórcia, usando a inteligência e a lei para fazer justiça com misericórdia. Ou podem ser o sistema veneziano que oprime os Shylocks até transformá-los em monstros.

O magistrado Sidnei Beneti disse algo que resume tudo: um bom juiz não precisa ser um homem perfeito, mas basta que seja um ser humano, com feixe de virtudes a largamente ultrapassar o elenco de defeitos, e que na atividade jurisdicional se dedique com honestidade e afinco à busca da justiça.

E Salomão, no final da vida, arrependido, escreveu: "Deus há de trazer a juízo toda obra, até as que estão escondidas, sejam boas ou más."

Na versão moderna: a sociedade trará a público toda obra, até as que você achou que estavam escondidas. E aí não adianta chorar.

A escolha é de vocês. Salomão jovem ou Salomão velho? Juiz de Bangalore ou ministro sem controle? Magistrado respeitado ou meme nacional? Toga limpa ou toga manchada? Pórcia salvadora ou sistema opressor?

Boa sorte. Vocês vão precisar. E lembrem-se sempre: o luxo é o veneno mais doce. Não provem. Porque uma vez que você prova, fica cada vez mais difícil resistir. E quando você percebe, já vendeu sua alma sem nem saber o preço.

Agora vão estudar Processo Civil, que isso aqui não cai na prova objetiva. Mas cai na vida. E a prova da vida não tem gabarito, não tem recurso e não tem segunda chamada.

A aula terminou. O resto é com vocês.


FIM


Redator - IA Claude Sonnet 4. Responsável Ingo Dietrich Söhngen . Imagens criadas pela IA GPT 5.2


LISTA DE ORIGENS, TÍTULOS E LINKS DOS DOCUMENTOS UTILIZADOS para a redação.


DOCUMENTOS PRINCIPAIS

1. Comentários aos Princípios de Bangalore de Conduta Judicial (ONU, 2008)

Título Original: Commentary on The Bangalore Principles of Judicial Conduct

Fonte: Conselho da Justiça Federal / Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC)

Tradução: Marlon da Silva Malha e Ariane Emílio Kloth

Link de acesso:

https://www.unodc.org/documents/lpo-brazil/Topics_corruption/Publicacoes/2008_Comentarios_aos_Principios_de_Bangalore.pdf

Conteúdo relevante:

  • Os seis princípios fundamentais (Independência, Imparcialidade, Integridade, Idoneidade, Igualdade, Competência e Diligência)
  • Comentários detalhados sobre cada princípio
  • Exemplos práticos de aplicação
  • Bibliografia selecionada com instrumentos regionais e internacionais
  • Índice remissivo com temas como: presentes, relacionamentos sociais, mídias, conflitos de interesse, etc.

2. Os Princípios de Bangalore de Conduta Judicial e os Desafios do Magistrado Brasileiro na Era Digital

Autores: Ferdinando Marco Gomes Serejo Sousa (Enfam/TJMA) e José Luis Luvizetto Terra (Enfam/TRF 4ª Região)

Contexto: Artigo apresentado em congresso sobre "Inovações, inteligência artificial e tecnologias de informação e comunicação em sistemas de justiça"

Conteúdo relevante:

  • Análise dos Princípios de Bangalore no contexto da Era Digital
  • Desafios específicos: sistemas eletrônicos (PJe, SISBAJUD, RENAJUD), gestão de metas, redes sociais
  • Conceito de hipervisibilidade judicial
  • Necessidade de equilibrar hard skills e soft skills
  • Importância da competência tecnológica

Resoluções citadas:

  • Resolução CNJ nº 305/2019 (redes sociais)
  • Resolução CNJ nº 332/2020 (inteligência artificial)

3. O Juiz e as Mídias Sociais: Ética e Conduta Judicial

Autor: Ministro Aloysio Corrêa da Veiga (Tribunal Superior do Trabalho)

Conteúdo relevante:

  • Alertas sobre manifestações nas redes sociais: "nunca são privadas, multiplicam-se milhares de vezes em fração de segundos"
  • Diretrizes da ONU (2018) sobre juízes nas redes sociais
  • Princípios práticos:
    • Identificação clara (evitar pseudônimos enganosos)
    • Não comentar processos pendentes
    • Não depreciar decisões judiciais
    • Cuidado com "amizades" virtuais (advogados, partes)
    • Informar familiares sobre obrigações éticas

Frase-síntese do autor:

"A prudência, a moderação, a temperança, o equilíbrio e a cautela são pressupostos do uso pelo juiz das redes sociais."

Base normativa citada:

  • Lei Orgânica da Magistratura (LC 35/1979)
  • Princípios de Bangalore
  • Código de Ética da Magistratura Nacional
  • Código Ibero-Americano

4. "Sob Controle do Usuário": Formação dos Juízes Brasileiros para o Uso Ético da IA no Judiciário

Autoras:

  • Eunice M. B. Prado (Juíza de Direito/TJPE, Mestranda PPGPD/ENFAM)
  • Luciane A. Corrêa Münch (Desembargadora Federal/TRF4, Doutora em Direito)
  • Márcia A. Corrêa Ughini Villarroel (Doutora em Psicologia e Educação/USP, Professora IFRS)

Publicação: Revista "Direito Hoje" – Emagis/TRF4

Link de acesso:

https://www.trf4.jus.br/trf4/controlador.php?acao=pagina_visualizar&id_pagina=2287

Conteúdo relevante:

  • Pesquisa empírica com 688 magistrados brasileiros
  • Resultado alarmante: Juízes não estão preparados para controlar eticamente ferramentas de IA
  • Princípio "sob controle do usuário" (Carta Europeia de Ética/CEPEJ + Resolução CNJ 332/2020)
  • 64 projetos de IA em desenvolvimento nos tribunais brasileiros
  • Problema identificado: Falta de capacitação e desconhecimento do poder-dever de controle

Base normativa:

  • Carta Europeia de Ética sobre o Uso da IA em Sistemas Judiciais (CEPEJ, 2018)
  • Resolução CNJ nº 332/2020
  • Resolução CNJ nº 75/2009 (alterada para incluir conhecimentos sobre IA em concursos)

5. Conduta de Ministros do STF Está Fora de Controle, Diz Conrado Hübner

Fonte: CNN Brasil

Data: 20/12/2025 (atualizado 21/12/2025)

Autor da reportagem: Jorge Fernando Rodrigues

Entrevistado: Prof. Dr. Conrado Hübner Mendes (Professor de Direito Constitucional/USP)

Link de acesso:

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/conduta-de-ministros-do-stf-esta-fora-de-controle-diz-conrado-hubner/

Programa: WW Especial (apresentado por William Waack)

Principais declarações:

  • "Conduta individual dos ministros do STF está absolutamente sem controle"
  • "STF tornou-se surdo e indiferente às críticas"
  • STF se "autolibertou de amarras éticas" e não se subordina ao CNJ
  • Ministros declararam que "não precisam de código de ética"
  • Derrubaram regra de suspeição para casos com parentes advogados
  • Único controle (impeachment pelo Senado) "nunca funcionou"
  • Distinção: STF encontra limites (braço de ferro político), mas não tem controle institucional

6. What Is Bangalore Declaration: All You Need To Know

Autor: Janice Ruiz

Data: 9 de maio de 2022

Site: AJS.org (American Judges Society)

Link de acesso:

https://www.ajs.org/what-is-bangalore-declaration/

IMPORTANTE: Este documento distingue DUAS Declarações de Bangalore diferentes:

A) Declaração de Bangalore de 1995

Contexto: Conferência da Comissão Internacional de Juristas (CIJ) em Bangalore, Índia (23-25 de outubro de 1995)

Objetivo: Desenvolver plano de ação para promoção de direitos econômicos, sociais e culturais e o papel dos advogados/juízes nessa promoção

Temas principais:

  • Princípios de Limburgo (1986) para implementação do PIDESC
  • Universalidade dos direitos humanos
  • Direitos das mulheres (Plataforma de Pequim, 1995)
  • Papel de instituições financeiras internacionais (Banco Mundial, FMI)
  • Combate à impunidade e corrupção

Resolução para magistrados:

  • Juízes devem referenciar normas internacionais de direitos humanos em suas decisões
  • Proteger grupos vulneráveis (mulheres, minorias, pessoas com deficiência)
  • Combater corrupção de funcionários públicos
  • Facilitar acesso à justiça para desfavorecidos

B) Princípios de Bangalore sobre Conduta Judicial (2001-2002)

Contexto: Grupo da Integridade Judicial apoiado pela ONU (PNUD e UNODC)

Objetivo: Estabelecer padrões éticos universais para a conduta de magistrados

Os seis princípios: Independência, Imparcialidade, Integridade, Idoneidade, Igualdade, Competência e Diligência


7. Bangalore Cards (Cartões dos Princípios de Bangalore)

Formato: Material visual didático em português

Conteúdo: Versão resumida dos seis princípios em formato de cards/cartões

Princípios apresentados:

  1. Independência é pré-requisito do Estado de Direito e garantia fundamental para julgamento justo
  2. Imparcialidade é essencial e aplica-se não apenas à decisão, mas ao processo decisório
  3. Integridade é essencial para o exercício correto do cargo judicial
  4. Idoneidade e a aparência de idoneidade são essenciais para todas as atividades do juiz
  5. Assegurar igualdade de tratamento de todos perante a Justiça é essencial
  6. Competência e Diligência são pré-requisitos para o devido exercício do cargo judicial

DOCUMENTOS DE REFERÊNCIA CITADOS NAS FONTES

Instrumentos Internacionais:

  1. Declaração Universal dos Direitos Humanos (art. 19 - liberdade de expressão)
  2. Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica)
  3. Convenção Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDESC)
  4. Princípios de Limburgo (1986) - diretrizes para implementação do PIDESC
  5. Princípios Básicos das Nações Unidas sobre a Independência do Judiciário (1985)
  6. Carta Europeia sobre o Estatuto dos Juízes (Conselho da Europa, 1998)
  7. Carta Europeia de Ética sobre o Uso da Inteligência Artificial em Sistemas Judiciais (CEPEJ, 2018)

Legislação e Normativas Brasileiras:

  1. Lei Complementar nº 35/1979 (Lei Orgânica da Magistratura Nacional)
  2. Lei nº 11.419/2006 (Lei do Processo Eletrônico)
  3. Medida Provisória 2.200-2/2001 (ICP-Brasil - Infraestrutura de Chaves Públicas)
  4. Resolução CNJ nº 305/2019 (conduta de magistrados nas redes sociais)
  5. Resolução CNJ nº 332/2020 (ética, transparência e governança no uso de IA no Judiciário)
  6. Resolução CNJ nº 325/2020
  7. Resolução CNJ nº 75/2009 (alterada para incluir conhecimentos sobre IA em concursos)
  8. Código de Ética da Magistratura Nacional
  9. Código Ibero-Americano de Ética Judicial

FONTE LITERÁRIA UTILIZADA

8. O Mercador de Veneza (The Merchant of Venice)

Autor: William Shakespeare

Data: Escrito entre 1596-1598 (período elisabetano)

Gênero: Comédia dramática/peça jurídica

Personagens principais relevantes à aula:

  • Shylock - agiota judeu que empresta dinheiro com cláusula de "libra de carne"
  • Antonio - mercador veneziano que toma emprestado
  • Pórcia - herdeira rica que se disfarça de advogado "Baltasar"
  • Bassanio - amigo de Antonio que precisa do empréstimo

Temas jurídicos abordados:

  • Conflito entre letra da lei e espírito da justiça
  • Discriminação e injustiça estrutural
  • Papel da misericórdia no sistema judicial
  • Uso e abuso do contrato como instrumento
  • Gênero e acesso à justiça

Citação central utilizada na aula:

"A qualidade da misericórdia não é forçada. Ela cai como a chuva suave do céu sobre a terra abaixo. É duplamente abençoada: abençoa aquele que dá e aquele que recebe. É mais poderosa nos mais poderosos... Mas a misericórdia está acima desse poder do cetro. Ela está entronizada no coração dos reis. É um atributo de Deus mesmo, e o poder terreno mais se aproxima de Deus quando a misericórdia tempera a justiça." (Ato IV, Cena I)

Edições recomendadas:

  • Shakespeare, William. O Mercador de Veneza. Trad. Bárbara Heliodora. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
  • Shakespeare, William. The Merchant of Venice. Edited by John Drakakis. London: Bloomsbury Arden Shakespeare, 2010.

Relevância para formação de magistrados:

  • Demonstra dilemas éticos atemporais do Judiciário
  • Ilustra consequências da aplicação mecânica da lei
  • Questiona o papel do juiz como mero aplicador versus intérprete humanizado
  • Expõe como sistemas legais podem perpetuar opressões estruturais
  • Mostra importância de considerar contexto social nas decisões

FONTES BÍBLICAS UTILIZADAS

9. Bíblia Sagrada - Livros do Antigo Testamento

Passagens específicas citadas:

A) Livro de 1 Reis

  • 1 Reis 3:5-14 - O pedido de sabedoria de Salomão
  • 1 Reis 3:16-28 - O julgamento das duas prostitutas
  • 1 Reis 4 - Organização administrativa do reino
  • 1 Reis 10:14-29 - Riqueza e luxo de Salomão
  • 1 Reis 11:1-8 - Multiplicação de mulheres e idolatria
  • 1 Reis 12:4 - Reclamação do povo sobre jugo pesado

B) Livro de Provérbios (atribuído a Salomão)

  • Provérbios 9:10 - "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria"
  • Provérbios 11:1 - Sobre balança enganosa e peso justo
  • Provérbios 17:23 - Sobre suborno e perversão da justiça
  • Provérbios 20:7 - Sobre integridade do justo
  • Provérbios 20:10 - Sobre duas medidas e dois pesos
  • Provérbios 22:1 - "O bom nome é mais desejável do que grandes riquezas"
  • Provérbios 22:28-29 - Sobre marcos antigos e habilidade
  • Provérbios 24:11 - Sobre livrar os destinados à morte
  • Provérbios 24:29 - Sobre não retribuir mal com mal
  • Provérbios 31:8-9 - "Abra a boca a favor do mudo... defenda os direitos dos pobres"

C) Livro de Eclesiastes (atribuído a Salomão idoso)

  • Eclesiastes 1:2 - "Vaidade de vaidades, tudo é vaidade"
  • Eclesiastes 2:9-11 - Reflexão sobre grandeza e vaidade
  • Eclesiastes 12:13-14 - "Teme a Deus e guarda os seus mandamentos... Deus trará a juízo toda obra"

D) Livro de Deuteronômio

  • Deuteronômio 17:14-20 - A Lei do Rei (advertências que Salomão violou)

Edições utilizadas:

  • Bíblia Sagrada. Tradução Almeida Revista e Atualizada (ARA). São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil.
  • Bíblia Sagrada. Nova Versão Internacional (NVI). São Paulo: Editora Vida.

Relevância histórica: Salomão reinou aproximadamente entre 970-931 a.C., sendo considerado o terceiro rei de Israel unificado. Sua história oferece paradigma histórico-moral sobre ascensão e queda de autoridade judicial.


RESUMO DAS FONTES UTILIZADAS NA AULA

Documento

Tipo

Ano

Foco Principal

Comentários ONU aos Princípios

Oficial/Internacional

2008

Ética judicial universal

Artigo Enfam (Era Digital)

Acadêmico

Recente

Desafios tecnológicos

Artigo Min. Aloysio (TST)

Institucional

Recente

Redes sociais

Artigo IA (TRF4)

Pesquisa empírica

2021

Controle ético da IA

Entrevista Hübner (CNN)

Jornalístico

Dez/2025

Crise no STF

What Is Bangalore (AJS)

Informativo

2022

Duas Declarações (1995 e 2001-2002)

Bangalore Cards

Didático

-

Material visual dos princípios

O Mercador de Veneza

Literário/Teatral

1596-1598

Dilemas éticos judiciais

Bíblia (1 Reis, Provérbios, Eclesiastes)

Religioso/Histórico

~950 a.C.

Trajetória de Salomão


METODOLOGIA DE INTEGRAÇÃO DAS FONTES

A aula integrou:

  1. Fontes normativas (Princípios de Bangalore, Resoluções do CNJ)
  2. Fontes acadêmicas (artigos sobre era digital e IA)
  3. Fontes jornalísticas (análise crítica contemporânea - Hübner)
  4. Fontes literárias (Shakespeare - dilemas éticos atemporais)
  5. Fontes históricas/religiosas (Salomão - paradigma de ascensão e queda moral)

Objetivo pedagógico: Demonstrar que os desafios éticos da magistratura são universais e atemporais, manifestando-se desde a antiguidade bíblica (Salomão), passando pelo teatro elisabetano (Shakespeare), até a crise institucional contemporânea (STF brasileiro).


Todas as citações, conceitos, exemplos e análises apresentadas na aula derivam dessas fontes documentadas, garantindo precisão histórica, rigor acadêmico, fundamentação ética e atualidade das informações apresentadas aos bacharéis em Direito.


FIM DA LISTA BIBLIOGRÁFICA