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Escritório de Advocacia - Dra. Clarice Beatriz da Costa Söhngen e Ingo Dietrich Söhngen

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sexta-feira, 12 de setembro de 2025

 Um Relato de Minha Chegada a Trumpetia e das Estranhas Afeições de Seu Governante


1

Após minha fuga das abstrações rarefeitas de Lupada(2), as correntes oceânicas me conduziram a uma costa dominada por uma colossal estátua feminina de semblante impassível e porte majestoso quando não voluptuoso, que parecia saudar eternamente os recém-chegados com uma tocha erguida em promessa de liberdade. A terra era chamada Trumpetia, e o ar, pesado com o aroma de fritura e carne grelhada -  outrora importada de Tropicália - vibrava com uma peculiar noção de liberdade que soava, a todo instante, como um slogan publicitário bem ensaiado.

O líder da nação era uma figura verdadeiramente singular, notável por seu tom de pele reminiscente de um pôr-do-sol alaranjado e um arranjo capilar que mais parecia uma criatura dourada e exótica adormecida sobre sua cabeça. Governava não de um trono tradicional, mas de uma cadeira ostensivamente dourada, relíquia de seus tempos como apresentador de um programa de competição onde se tornara célebre por dispensar candidatos com a frase seca e implacável: "You're fired!" Descobri, para meu crescente assombro, que ele havia desenvolvido tal afeição pela expressão que agora a aplicava com liberalidade na vida real, "demitindo" de sua própria nação as parcelas da população que ousavam contrariá-lo.

Fui conduzido à sua presença durante uma de suas performances diárias diante das câmeras de um canal de notícias. Naquela ocasião específica, defendia com fervor teatral um aliado político de um país ao sul, a ensolarada e efervescente Tropicália.

"É uma desgraça sem precedentes! Pior que aqueles episódios tediosos de Jornada nas Estrelas onde os personagens apenas debatem filosofia!", bradava o Presidente, gesticulando com tal energia que quase derrubou um copo de refrigerante de proporções desmesuradas. "Meu amigo — um sujeito nota dez, o melhor, o mais honesto que já conheci, e acreditem, conheço muitos homens honestos! — foi condenado por  juízes togados! E por qual crime, pergunto-vos? Simplesmente por ter, de maneira eminentemente patriótica, questionado o resultado de uma eleição que... bem, que ele perdeu! Meros detalhes! Ele desejava apenas agradar seu povo, o devotado povo do cercadinho que o venera! Eles o amam como amam cerveja gelada e sanduíche de mortadela! Inclusive, demonstraram seu apreço numa tarde de domingo, passeando pela capital e espalhando... flores."

A menção à iguaria popular me pareceu estranha, mas um assessor me segredou que se tornara símbolo de união entre os seguidores mais devotos do tal aliado. Quanto à questão das flores, permaneci igualmente intrigado, pois, pelos sussurros que captei nos corredores, de flores não se tratara naquela memorável tarde de domingo.

O Presidente então se voltou para um general cuja expressão impassível sugeria décadas de resignação profissional. "General, mobilizem os navios! E os aviões! Os mais formidáveis, os mais 'inacreditáveis', os melhores que já navegaram os mares ou cortaram os céus! Zarparemos para a costa de Tropicália e demonstraremos o que acontece quando se persegue um amigo do grandioso povo de Trumpetia!"

Um silêncio sepulcral tomou o recinto, interrompido apenas pelo distante som melódico de um vendedor de sorvetes que, do lado externo do palácio, anunciava seus produtos com toques de trompete de plástico.

 

3

Como observador imparcial, mal consegui conter um sorriso diante da completa desproporção do discurso. Falava de sua marinha como se fosse a única peça no tabuleiro mundial, esquecendo-se, em sua bravata histriônica, de um discreto consórcio de nações conhecido nos bastidores diplomáticos como "Os Ursos e os Dragões".

Estes países, muito menos inclinados a espetáculos públicos e governados por líderes que não pareciam ter saído de uma caricatura, possuíam — segundo mapas que consultei clandestinamente, escondidos no verso de um cardápio de pizzaria — arsenais discretos porém terrivelmente eficientes. Suas armas poderiam converter a orgulhosa armada de Trumpetia em recifes artificiais para mergulhadores em menos tempo do que se leva para dourar um pão de queijo no forno.

A cena era de uma ironia requintada: um homem-laranja, em seu palco dourado, ameaçando o mundo com seus custosos brinquedos de guerra, enquanto do outro lado do globo, um dragão paciente e um urso estoico o observavam, provavelmente com o mesmo divertimento de espectadores assistindo a uma comédia de pastelão particularmente absurda.

Já o presidente de Tropicália em elegante resposta ao presidente de Trumpetia apresentou artigo em prestigiado jornal local e entre outras questões (onde colocou os adultos na sala) afirmou: A democracia e a soberania de Tropicália não estão em discussão e não são negociáveis.

Parti de Trumpetia carregando uma convicção inabalável: a maior ameaça àquele povo não emanava de inimigos estrangeiros, mas da monumental e hilariante sátira que eles próprios haviam democraticamente elevado ao cargo supremo da nação. 

Observação Particular do Viajante: Devo confessar ao leitor que, mesmo tendo testemunhado as mais singulares bizarrices em Lilliput, Brobdingnag, Lupada  e entre os Houyhnhnms, o espetáculo que ora se desenrolava diante de meus olhos superava em absurdo e extravagância tudo quanto minha imaginação, por mais delirante que fosse em momentos de febre, jamais poderia ter arquitetado. Nem mesmo os mais engenhosos fabulistas de meu conhecimento seriam capazes de conceber tamanha inverossimilhança.

"Redator" responsável Ingo Dietrich Söhngen

Fontes: Swift, Jonathan. Gulliver's Travels (1726) • Trump, Donald. The Art of the Deal (1987) • The Apprentice (NBC, 2004-2017) • Vandré, Geraldo. "Pra não dizer que não falei das flores" (1968) • Invasão de 8 de janeiro de 2023, Brasília • Formação e expansão do BRICS • Hutcheon, Linda. A Theory of Parody (1985) • Müller, Jan-Werner. What Is Populism? (2016) • Star Trek (1966-presente). Jornais consultados pelas IAs: The New York Times, Washington Post, Folha de S.Paulo, O Globo, BBC Brasil.  Créditos: Texto por IA Gemini 2.5 Pro e Claude Sonnet. Imagens por  (1)SD3.5 Large e (3) DALL-E 3. (2) Laputa / ləˈptə / (Lupada, Lapuda  em espanhol) é uma ilha voadora descrita no livro de 1726 As Viagens de Gulliver de Jonathan Swift. [1] Tem cerca de 41/2 milhas (71/4 km) de diâmetro, com uma base adamantina, que seus habitantes podem manobrar em qualquer direção usando levitação magnética. A ilha é a casa do rei de Balnibarbi e sua corte, e é usada pelo rei para impor seu domínio sobre as terras abaixo. Fonte  Wikipédia. A respeito de Swift leia o seguinte texto de DANIEL BENEVIDES https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0801201120.htm#:~:text=Os%20leitores%20que%20retornam%20a%20Gulliver%20(,de%20pol%C3%ADtica%2C%20sociedade%2C%20ci%C3%AAncia%2C%20justi%C3%A7a%20e%20educa%C3%A7%C3%A3o.

Nota adicional: 

A Assimetria Hipersônica: Comparação das Capacidades Antisship

A partir de 2024-2025, observa-se uma assimetria significativa nas capacidades de ataque contra porta-aviões entre Estados Unidos e seus principais competidores estratégicos. China e Rússia desenvolveram e operacionalizaram sistemas de mísseis hipersônicos especificamente projetados para negar acesso naval americano em suas periferias marítimas, enquanto os Estados Unidos ainda trabalham para alcançar paridade tecnológica neste domínio específico.

A China destaca-se com sua família de "assassinos de porta-aviões" — os mísseis balísticos antisship DF-21D e DF-26, com alcances respectivos de aproximadamente 1.500 km e 4.000 km, complementados pelo míssil hipersônico YJ-21. Estas armas atingem velocidades entre Mach 5 e Mach 10+ durante a fase terminal, tornando extremamente difícil sua interceptação pelos sistemas defensivos atuais. A Rússia, por sua vez, opera o Kinzhal (Kh-47M2), míssil hipersônico ar-lançado capaz de Mach 10+, e o Zircon (3M22 Tsirkon), míssil de cruzeiro hipersônico lançado de plataformas navais e submarinas com velocidade de Mach 8-9.

Os Estados Unidos, apesar de sua liderança histórica em tecnologia militar, encontram-se em posição de recuperação neste segmento específico. Programas como o AGM-183 ARRW (Air-launched Rapid Response Weapon), o LRHW (Long-Range Hypersonic Weapon) e o HCSW (Hypersonic Conventional Strike Weapon) permanecem em fases de desenvolvimento ou testes iniciais. Nenhum sistema hipersônico antisship americano encontra-se plenamente operacional no momento, criando uma janela de vulnerabilidade estratégica estimada até 2025-2027.

Esta lacuna tecnológica temporária força os Estados Unidos a dependerem de compensações assimétricas em outras dimensões do poder naval. A frota de submarinos nucleares de ataque americanos — particularmente as classes Virginia e Seawolf — mantém superioridade tecnológica sobre equivalentes russo-chineses, oferecendo plataformas excepcionalmente silenciosas e letais. A aviação stealth americana, incluindo caças F-35 e bombardeiros B-2 e B-21, proporciona capacidade de penetração em ambientes contestados. Adicionalmente, os sistemas de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR) americanos permanecem sem paralelo, oferecendo consciência situacional superior. Finalmente, os Estados Unidos mantêm vastos arsenais de mísseis convencionais subsônicos — Tomahawk, LRASM e Harpoon — cuja eficácia reside na saturação defensiva através de volume.

As implicações estratégicas desta assimetria são profundas. A doutrina chinesa de negação de acesso e área contestada (A2/AD - Anti-Access/Area Denial) tornou-se materialmente viável, forçando porta-aviões americanos a operarem além de 2.000 km das costas chinesas em cenários de conflito — distância que reduz significativamente a eficácia da aviação embarcada. Em contextos como uma potencial crise no Estreito de Taiwan ou disputas no Mar da China Meridional, esta vulnerabilidade altera fundamentalmente os cálculos estratégicos que sustentaram a hegemonia naval americana desde 1945. A Marinha dos Estados Unidos vê-se compelida a repensar conceitos operacionais estabelecidos há décadas, desenvolvendo doutrinas de "operações distribuídas" que dispersam ativos navais para complicar o targeting adversário.

Esta situação ilustra a natureza cíclica da competição militar tecnológica. Historicamente, os porta-aviões representaram a solução definitiva para projeção de poder naval no século XX. Agora, enfrentam desafios existenciais de sistemas desenvolvidos especificamente para explorarem suas vulnerabilidades — plataformas grandes, caras, e concentrando imenso valor militar em alvos únicos. A resposta americana combinará desenvolvimento tecnológico acelerado em hipersônicos, aperfeiçoamento de defesas em camadas (sistemas Aegis aprimorados, armas de energia dirigida, guerra eletrônica avançada), e transformação doutrinária para reduzir dependência de plataformas vulneráveis.


  • Bibliografia Selecionada:
  • Woolf, A.F. (2023). Conventional Prompt Global Strike and Long-Range Ballistic Missiles: Background and Issues. Congressional Research Service, Report R41464.
  • O'Rourke, R. (2024). China Naval Modernization: Implications for U.S. Navy Capabilities. Congressional Research Service, Report RL33153.
  • Cancian, M.F. (2021). The First Battle of the Next War: Wargaming a Chinese Invasion of Taiwan. Center for Strategic and International Studies.
  • Karako, T. et al. (2022). Complex Air Defense: Countering the Hypersonic Missile Threat. CSIS Missile Defense Project.
  • Speier, R.H. et al. (2017). Hypersonic Missile Nonproliferation. RAND Corporation, RR-2137.
  • Office of the Secretary of Defense (2023). Military and Security Developments Involving the People's Republic of China. Annual Report to Congress.
  • Goldstein, L. (2020). "China's Anti-Ship Ballistic Missile: Developments and Missing Links." Naval War College Review, Vol. 64, No. 4.
  • Cropsey, S. & Turzanski, A. (2020). Sharpening the Spear: The Carrier, the Joint Force, and High-End Conflict. Hudson Institute.