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Escritório de Advocacia - Dra. Clarice Beatriz da Costa Söhngen e Ingo Dietrich Söhngen

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terça-feira, 9 de junho de 2026

 OPINIÕES DE BROA DE MILHO

 

O cenário é a calçada do "Bar do Zé", na esquina da avenida da faculdade. Quatro rodadas de  copos de chope vazios acumulam-se no centro da mesa de plástico vermelha; a  quinta  acabou de ser servida, com aquele colarinho generoso que o garçom faz questão de caprichar porque já passa das onze da noite de uma terça-feira. O barulho do trânsito vai diminuindo, restando apenas o zumbido da geladeira expositora de bebidas e o eco distante de uma ambulância.

O Professor de Geopolítica, com o colarinho da camisa social desabotoado e a gravata já enfiada no bolso do paletó amassado, olha para o quinto  copo, dá um gole generoso e limpa a espuma do bigode antes de apontar o dedo indicador para os três alunos de graduação que restaram na mesa.

 



Olhem aqui... prestem atenção. Vocês acham que a aula de hoje sobre a balança de poder no Leste Europeu foi complexa? Bobagem. Tudo o que eu disse lá na sala, com aquele projetor pifando e o giz de cera que a reitoria insiste em comprar, é pose. É verniz acadêmico para justificar meu salário.

Se vocês querem entender a geopolítica real, a geopolítica que move o mundo de verdade, vocês não precisam de Carl Philipp Gottfried von Clausewitz (* 01.06.1780 – † 16.11.1831). Não precisam de Otto von Bismarck (* 01.04.1815 – † 30.07.1898).  Não precisam de Henry Alfred Kissinger (* 27.05.1923 – † 29.11.2023). Vocês precisam de um sujeito chamado Mark Twain[1] Samuel Langhorne Clemens (* 30.11.1835 – † 21.04.1910) e de um escravo chamado Jerry, que pregava em cima de uma pilha de lenha no Missouri, no meio  do século dezenove.

Zé! Traz mais uma rodada aqui para os meninos. E bota na minha conta que hoje eu recebi a miséria do decimo terceiro parcial.

Pois bem. O Twain escreveu um conto   maravilhoso chamado Corn-Pone Opinions [2]— que a tradução oficial, essa gente engomada que nunca pisou num boteco, traduz como "Opiniões Caipiras". Mas o termo correto é "Opiniões de Broa de Milho". O Jerry, o tal escravo, dizia o seguinte pro Twain (Samuel Langhorne  Clemens) , que na época era só um moleque catarrento: 

"Diga-me onde um homem consegue sua broa de milho, e eu lhe direi quais são suas opiniões." (Meados da década de 1840).[3]

"You tell me whar a man gits his corn pone, en I'll tell you what his 'pinions is."

 


(O professor dá mais um gole, os olhos brilhando um pouco mais, a voz subindo um tom acima do recomendável para o horário)

Vocês estão rindo? Vocês acham que isso é piada de caipira americano? Isso é a chave de ouro da geopolítica moderna, seus cabeças de bagre! O que o Jerry estava dizendo é que a nossa opinião não vem do cérebro. Vem do estômago! Vem do medo de passar fome, do pavor de ser expulso da tribo, de ficar sem a broa de milho que o patrão, ou o partido, ou o grupo social nos dá de comer.

E hoje? Hoje a "broa de milho" mudou de formato. Ela não é mais feita de fubá. Ela é feita de pixels. Ela é o like. Ela é o algoritmo de entrega do Instagram, do Twitter... ou seja lá como se chama aquela latrina digital esta semana.

Olha para aquela tela ali na parede do bar, sintonizada num desses canais de notícia 24 horas. Olhem para aquele apresentador com cara de quem passou botox até na alma. Ele está lendo o teleprompter com uma gravidade de quem está anunciando o Apocalipse, mas o que ele está fazendo, na verdade, é mendigar a broa de milho dele! A imprensa tradicional capitulou faz tempo. Eles não informam mais; eles fazem curadoria de histeria coletiva para ver se conseguem cinco minutos de atenção de uma massa anestesiada. Se o vento da rede social sopra para a esquerda, o editorial dá uma guinada olímpica; se sopra para a direita, eles descobrem o patriotismo em trinta segundos. É a broa de milho corporativa.

(O professor gesticula de forma mais enfática, quase derrubando o saleiro de plástico)

Mas a imprensa ainda tenta manter a pose de seriedade, o que torna a coisa patética. E, não vamos agora falar de hiperextensão de notícias insossas para ocultar outras extremamente graves.  O ridículo absoluto está no andar de baixo. Está nas redes sociais.

Antigamente, para ser o "filósofo de bar" — como nós estamos sendo aqui agora, sejamos honestos —, o sujeito precisava ter a coragem de vir até o boteco, beber três garrafas de cerveja barata e falar besteira cara a cara, correndo o risco real de levar um cala-boca de um sujeito de dois metros de altura na mesa ao lado. Havia um limite físico para a estupidez. O sujeito passava vergonha apenas para as dez pessoas que estavam bebendo no mesmo balcão.

Hoje? Hoje o imbecil não precisa sair de casa. Ele acorda, coça a barriga, abre o aplicativo e decide emitir uma "opinião abalizada" sobre a eficácia de vacinas, a política cambial da China ou o direito constitucional internacional. Ele leu um fio de tweets escrito por um garoto de dezoito anos que ganha a vida vendendo curso de marketing digital e, de repente, sente-se o próprio Kant de chinelos!

O Twain percebeu isso de forma cirúrgica em 1901.  Ele dizia que o homem acha que reflete de forma independente. Que mentira deslavada! O homem "reflete" com o seu partido, com a sua bolha. Ele só lê a literatura do seu próprio lado. Ele adota a opinião da moda com a mesma facilidade com que adota o corte de cabelo ou o modelo de calça que o "asno de alto nível" — palavras do Twain, não minhas! — decidiu que é a tendência da estação.

E quem é o "asno de alto nível" hoje? O influenciador digital com dentes de porcelana ultra brancos que faz dancinha ensinando como investir na bolsa ou como se posicionar sobre a guerra no Oriente Médio entre um anúncio de cassino online e um de shake emagrecedor. Esse é o sujeito cuja aprovação vale "ouro e diamantes" para o asno menor que o segue. É de uma cafonice intelectual que dá náusea.

(O professor faz uma pausa dramática, toma a outra metade do copo de chope de uma vez e solta um suspiro pesado, o tom tornando-se mais arrastado, mas também mais ácido e confessional)

E o pior, meus caros... o pior é que isso não é engraçado. É trágico. É perigoso demais.

E não sou só eu, com este chope morno na cabeça, que estou dizendo isso. O Machado de Assis — que Deus o tenha em bom lugar, porque ele sim sabia o que era a miséria da alma humana — já desenhou essa ópera no século dezenove  praticamente dizendo em português o que Twain dizia em inglês. Vocês se lembram do Quincas Borba? Do Humanitismo? Aquela filosofia de hospício que dizia que a dor não existe, que a guerra é linda porque "ao vencedor, as batatas"?

O que era o Humanitismo[4] senão uma rede social analógica? O Rubião[5] fingia que entendia aquela loucura, a sociedade da corte batia palmas para o que pretensamente fora criado por  Quincas Borba antes falecido. Rubião seu herdeiro testamentário  porque  tinha dinheiro e prestígio, e no fim todo mundo se abraçava na ignorância mútua porque era socialmente conveniente. Machado sabia que a opinião pública no Brasil é uma imensa coreografia de aparências, onde o sujeito prefere morrer de peste a confessar que não faz a menor ideia do que está falando.

E agora nós temos essa inteligência artificial no Judiciário, essas discussões sobre "quem vigia os vigilantes". Vocês leram aquele artigo sobre o STF que eu passei na semana passada? Aqueles ministros que decidiram que não precisam seguir o código de ética de Bangalore porque estão acima do bem e do mal? Pois bem. Quem é que protesta contra isso nas redes? É o sujeito que estudou direito constitucional? Não! É o filósofo de bar digital que confunde processo penal com receita de bolo, mas que tem um milhão de seguidores e grita mais alto. E, não vamos falar aqui da questão mercurial nos rios da Amazônia e da  matança dos indígenas. Também não vamos falar    na sexta roda de chope da questão do racismo ambiental estrutural  afinal não é  importante para nós filósofos de bar de esquina dissertar sobre tão insignificante  questão social. Para nós é mais  importante falar sobre as peripécias sexuais  daquele famoso jogador  estacionado no departamento  médico.   

(Ele apoia os cotovelos na mesa, aproximando-se dos alunos, a fala um pouco mais pesada, mas os olhos fixos)

Nós democratizamos a voz pública, meus jovens. E o que fizemos com essa conquista monumental? Entregamos a chave do hospício para os loucos mais barulhentos. A ignorância confiante — aquela que Twain tanto temia — virou modelo de negócios. O algoritmo não quer saber se o que você está dizendo tem base científica ou histórica; ele quer saber se o que você postou fez o fígado do seu leitor  ferver de ódio. O ódio engaja. A nuance dá sono. E o sono não vende anúncio de sapato.

Nós estamos vivendo sob a ditadura da broa de milho digital. Todos nós. Inclusive eu, que amanhã cedo vou ter que colocar um terno, engolir a ressaca e fingir para cinquenta alunos que o mundo é governado por tratados internacionais e não pelo humor instável de três bilionários donos de redes sociais que sofrem de complexo de Messias.

(O professor olha para o copo vazio, bate levemente com ele na mesa e dá um sorriso amargo)

Zé! Fecha a conta aqui. E tragam um táxi para este velho mestre, antes que eu decida abrir uma conta no TikTok para explicar a queda do Império Romano em formato de dancinha. Afinal, a broa de milho não vai se pagar sozinha, não é verdade?

 (O professor dá uma última risada de escárnio, balançando a cabeça enquanto o garçom traz a conta e uma saideira que ninguém pediu).

E querem saber qual é a piada definitiva? A cereja do bolo de fubá dessa nossa broa de milho contemporânea?

Se vocês olharem para este manifesto indignado que acabei de declamar para vocês, com toda essa empáfia de mestre de geopolítica, com citações pomposas de Twain, Machado e Juvenal... a verdade é que o pretenso autor dessa tese nem sequer se deu ao trabalho de queimar os neurônios para escrevê-la.

Ele não abriu um livro, não folheou as Memórias Póstumas, não buscou o ensaio original de Twain na biblioteca digital. Nada! O nosso brilhante "pensador" contemporâneo limitou-se a abrir uma aba no navegador, digitar três ou quatro prompts preguiçosos em uma inteligência artificial e deixar que um algoritmo fizesse todo o trabalho de costurar a ironia por ele.

Ele conseguiu a broa de milho dele sem precisar sequer moer o grão! É o ápice da nossa era: o sujeito terceiriza até a própria indignação intelectual para uma máquina e depois compartilha o resultado posando de grande humanista crítico das redes sociais.

Nós não somos apenas os asnos que imitam; nós somos os asnos que aprenderam a programar outros asnos de silício para fingir que pensamos por nós.

Zé, traz logo esse táxi antes que a inteligência artificial do meu celular descubra que eu estou falando mal dela e decida bloquear o meu aplicativo do banco!

 


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional (CC BY-NC 4.0).

Disponível em: https://sohngen.blogspot.com/2026/06/opinioes-de-broa-de-milho-o-cenario-e.html

Para ver uma cópia desta licença, visite: https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/deed.pt_BR

Licença CC BY-NC 4.0  Esta licença permite compartilhar (copiar e redistribuir) e adaptar (remixar, transformar e criar) "OPINIÕES DE BROA DE MILHO” em qualquer formato, desde que seja dado crédito adequado ao autor original com link para a fonte original e para a licença, indicando alterações feitas, sendo expressamente proibido o uso para fins comerciais. Não se pode adicionar restrições além das previstas, elementos em domínio público não são afetados, e o descumprimento cancela automaticamente os direitos concedidos, ressaltando-se que a licença pode não contemplar todas as permissões necessárias para certos usos.

 Observação: Este texto foi  desenvolvido com auxílio da  IA – Claude Sonnet 4 da Antropic – O responsável é Ingo Dietrich Söhngen.

As imagens foram desenvolvidas pela IA Nano Banana 2. 

E, cabe aqui uma pequena advertência:

O Diagnóstico de Twain no Século XXI

A leitura de "Corn-Pone Opinions" no cenário atual revela que a internet não democratizou a verdade nem libertou o pensamento crítico; ela apenas acelerou e industrializou a nossa tendência biológica de sermos "criaturas de influências externas".

O diagnóstico de Twain permanece impecável. O ser humano contemporâneo continua confundindo sentimento com pensamento. Ao defendermos com unhas e dentes as pautas do nosso "grupo" nas caixas de comentários, acreditamos estar exercendo nossa liberdade de expressão e originalidade. No entanto, estamos apenas imitando os "Smiths" e os "Jones" do nosso feed, repetindo jargões que não criamos, para garantir nossa cota diária de aceitação social e garantir que o nosso "pão de milho" digital continue sendo servido.

E, para aqueles que acham  que não se pode escrever textos com auxílio de IA faço remissão a uma vencedora do Prêmio Nobel de Literatura - Olga Tocártchuc, vencedora do Nobel de Literatura de 2018, que admitiu usar um modelo de IA (Inteligência Artificial) para ajudar em seu processo criativo. In (3505) Vencedora do Nobel de Literatura admite usar Inteligência Artificial | LIVE CNN - YouTube. Então aos vencedores as batatas...

Remições: 

[1] Mark Twain (pseudônimo de Samuel Langhorne Clemens) foi um escritor e humorista norte-americano, aclamado por William Faulkner como o "pai da literatura americana". Ele revolucionou as letras mundiais ao abandonar o estilo europeu formal, adotando a linguagem coloquial, os dialetos regionais e uma profunda crítica social.Wikipédia. In  https://pt.wikipedia.org/wiki/Mark_Twain.

[2] O ensaio "Corn-Pone Opinions" de Mark Twain foi escrito em 1901, embora sua publicação tenha ocorrido apenas postumamente em 1923, dentro da coletânea Europe and Elsewhere. O texto oferece uma reflexão crítica sobre a conformidade social e a tendência humana de seguir opiniões de rebanho. https://www-thoughtco-com.translate.goog/corn-pone-opinions-by-mark-twain-1690231?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=sge.  [1, 2]

[3] A encenação de sermões na pilha de lenha ocorreu em uma Hannibal sob o regime da escravidão legalizada. Samuel Clemens trabalhou e viveu formalmente na cidade até 1853, quando completou 17 anos e partiu para trabalhar como tipógrafo em outras capitais.

No mesmo fragmento de suas memórias, Twain reconta que ele e seus amigos de infância eram companheiros de Jerry.   Samuel Clemens nasceu no final de 1835 e viveu o auge de sua infância lúdica e observadora em Hannibal, Missouri, justamente durante a década de 1840. In chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://anth.umd.edu/sites/anth.umd.edu/files/pubs/IJHS%2017%20%283%29%20Mark%20Twain.pdf – pesquisa em 2026-06-07

[4] O "Humanitismo de Rubião" é a apropriação ingênua e delirante da filosofia de Quincas Borba, usada pelo protagonista para mascarar a dor da rejeição de Sofia e justificar os gastos absurdos com seus exploradores sob o pretexto de "celebrar a vida". Sem capacidade para compreender o cinismo e a crueldade da teoria original, Rubião distorce o conceito ao longo de sua decadência mental, culminando no delírio de que ele próprio é o imperador Luís Napoleão. No fim, a aplicação prática de sua filosofia pessoal o transforma na maior prova viva da tese: incapaz de lutar na seleção social, ele vira o derrotado da história, deixando as "batatas" nas mãos do casal Palha.

O Objetivo de Machado de Assis

O Humanitismo não deve ser interpretado como uma filosofia séria, mas sim como uma sátira mordaz. Através dela, Machado de Assis ironizava o excesso de cientificismo e as correntes ideológicas que dominavam a elite intelectual do final do século XIX, tais como: [1, 2]
  • O Darwinismo Social: Que tentava justificar as desigualdades sociais e o imperialismo como mera "seleção natural".
  • O Positivismo: Que colocava a ciência e o progresso material acima de qualquer barreira moral ou ética.
  • A Hipocrisia Social: Onde os personagens usam uma fachada de civilidade, mas agem com profundo egoísmo por baixo dos panos. [1, 2, 3]
A ironia machadiana atinge seu auge no destino dos próprios personagens: Quincas Borba (o criador da teoria) e Rubião (seu discípulo) terminam a vida na miséria absoluta e completamente loucos, provando o absurdo prático de tal filosofia. [1, 2, 3]

 [5] Quincas Borba narra a trágica trajetória de Rubião, um ingênuo professor que herda uma imensa fortuna do filósofo Quincas Borba com a condição de cuidar de seu cachorro homônimo. Ao se mudar para o Rio de Janeiro, o novo rico torna-se alvo fácil de uma elite parasitária, encarnada pelo ambicioso Cristiano Palha e sua esposa Sofia, por quem Rubião desenvolve uma paixão platônica devastadora. Manipulado e financeiramente sugado por falsos amigos, o protagonista perde progressivamente a sanidade, passando a acreditar que é o imperador Luís Napoleão, até terminar seus dias na miséria e na loucura absoluta, ilustrando de forma cruel a ironia do "ao vencedor, as batatas".