OPINIÕES DE BROA DE MILHO
O cenário é
a calçada do "Bar do Zé", na esquina da avenida da faculdade. Quatro
rodadas de copos de chope vazios
acumulam-se no centro da mesa de plástico vermelha; a quinta acabou de ser servida, com aquele colarinho generoso
que o garçom faz questão de caprichar porque já passa das onze da noite de uma
terça-feira. O barulho do trânsito vai diminuindo, restando apenas o zumbido da
geladeira expositora de bebidas e o eco distante de uma ambulância.
O Professor
de Geopolítica, com o colarinho da camisa social desabotoado e a gravata já
enfiada no bolso do paletó amassado, olha para o quinto copo, dá um gole generoso e limpa a espuma do
bigode antes de apontar o dedo indicador para os três alunos de graduação que
restaram na mesa.
Olhem
aqui... prestem atenção. Vocês acham que a aula de hoje sobre a balança de
poder no Leste Europeu foi complexa? Bobagem. Tudo o que eu disse lá na sala,
com aquele projetor pifando e o giz de cera que a reitoria insiste em comprar,
é pose. É verniz acadêmico para justificar meu salário.
Se vocês querem entender a geopolítica real, a geopolítica que move o mundo de verdade, vocês não precisam de Carl Philipp Gottfried von Clausewitz (* 01.06.1780 – † 16.11.1831). Não precisam de Otto von Bismarck (* 01.04.1815 – † 30.07.1898). Não precisam de Henry Alfred Kissinger (* 27.05.1923 – † 29.11.2023). Vocês precisam de um sujeito chamado Mark Twain[1] Samuel Langhorne Clemens (* 30.11.1835 – † 21.04.1910) e de um escravo chamado Jerry, que pregava em cima de uma pilha de lenha no Missouri, no meio do século dezenove.
Zé! Traz
mais uma rodada aqui para os meninos. E bota na minha conta que hoje eu recebi
a miséria do decimo terceiro parcial.
Pois bem. O Twain escreveu um conto maravilhoso chamado Corn-Pone Opinions [2]— que a tradução oficial, essa gente engomada que nunca pisou num boteco, traduz como "Opiniões Caipiras". Mas o termo correto é "Opiniões de Broa de Milho". O Jerry, o tal escravo, dizia o seguinte pro Twain (Samuel Langhorne Clemens) , que na época era só um moleque catarrento:
"Diga-me onde um homem consegue sua broa de
milho, e eu lhe direi quais são suas opiniões." (Meados da década de
1840).[3]
"You tell me whar a man gits his corn pone, en I'll tell you what his 'pinions is."
(O professor dá mais um gole, os olhos brilhando um pouco mais, a voz subindo um tom acima do recomendável para o horário)
Vocês estão
rindo? Vocês acham que isso é piada de caipira americano? Isso é a chave de
ouro da geopolítica moderna, seus cabeças de bagre! O que o Jerry estava
dizendo é que a nossa opinião não vem do cérebro. Vem do estômago! Vem do medo
de passar fome, do pavor de ser expulso da tribo, de ficar sem a broa de milho
que o patrão, ou o partido, ou o grupo social nos dá de comer.
E hoje?
Hoje a "broa de milho" mudou de formato. Ela não é mais feita de
fubá. Ela é feita de pixels. Ela é o like. Ela é o algoritmo de entrega
do Instagram, do Twitter... ou seja lá como se chama aquela latrina digital
esta semana.
Olha para
aquela tela ali na parede do bar, sintonizada num desses canais de notícia 24
horas. Olhem para aquele apresentador com cara de quem passou botox até na
alma. Ele está lendo o teleprompter com uma gravidade de quem está anunciando o
Apocalipse, mas o que ele está fazendo, na verdade, é mendigar a broa de milho
dele! A imprensa tradicional capitulou faz tempo. Eles não informam mais; eles
fazem curadoria de histeria coletiva para ver se conseguem cinco minutos de
atenção de uma massa anestesiada. Se o vento da rede social sopra para a
esquerda, o editorial dá uma guinada olímpica; se sopra para a direita, eles
descobrem o patriotismo em trinta segundos. É a broa de milho corporativa.
(O
professor gesticula de forma mais enfática, quase derrubando o saleiro de
plástico)
Mas a
imprensa ainda tenta manter a pose de seriedade, o que torna a coisa patética. E,
não vamos agora falar de hiperextensão de notícias insossas para ocultar outras
extremamente graves. O ridículo absoluto
está no andar de baixo. Está nas redes sociais.
Antigamente,
para ser o "filósofo de bar" — como nós estamos sendo aqui agora,
sejamos honestos —, o sujeito precisava ter a coragem de vir até o boteco,
beber três garrafas de cerveja barata e falar besteira cara a cara, correndo o
risco real de levar um cala-boca de um sujeito de dois metros de altura na mesa
ao lado. Havia um limite físico para a estupidez. O sujeito passava vergonha
apenas para as dez pessoas que estavam bebendo no mesmo balcão.
Hoje? Hoje
o imbecil não precisa sair de casa. Ele acorda, coça a barriga, abre o
aplicativo e decide emitir uma "opinião abalizada" sobre a eficácia
de vacinas, a política cambial da China ou o direito constitucional
internacional. Ele leu um fio de tweets escrito por um garoto de dezoito anos
que ganha a vida vendendo curso de marketing digital e, de repente, sente-se o
próprio Kant de chinelos!
O Twain
percebeu isso de forma cirúrgica em 1901. Ele dizia que o homem acha que reflete de
forma independente. Que mentira deslavada! O homem "reflete" com o
seu partido, com a sua bolha. Ele só lê a literatura do seu próprio lado. Ele
adota a opinião da moda com a mesma facilidade com que adota o corte de cabelo
ou o modelo de calça que o "asno de alto nível" — palavras do Twain,
não minhas! — decidiu que é a tendência da estação.
E quem é o
"asno de alto nível" hoje? O influenciador digital com dentes de
porcelana ultra brancos que faz dancinha ensinando como investir na bolsa ou
como se posicionar sobre a guerra no Oriente Médio entre um anúncio de cassino
online e um de shake emagrecedor. Esse é o sujeito cuja aprovação vale
"ouro e diamantes" para o asno menor que o segue. É de uma cafonice
intelectual que dá náusea.
(O
professor faz uma pausa dramática, toma a outra metade do copo de chope de uma
vez e solta um suspiro pesado, o tom tornando-se mais arrastado, mas também
mais ácido e confessional)
E o pior,
meus caros... o pior é que isso não é engraçado. É trágico. É perigoso demais.
E não sou
só eu, com este chope morno na cabeça, que estou dizendo isso. O Machado de
Assis — que Deus o tenha em bom lugar, porque ele sim sabia o que era a miséria
da alma humana — já desenhou essa ópera no século dezenove praticamente dizendo em português o que Twain
dizia em inglês. Vocês se lembram do Quincas Borba? Do Humanitismo? Aquela
filosofia de hospício que dizia que a dor não existe, que a guerra é linda
porque "ao vencedor, as batatas"?
O que era o
Humanitismo[4]
senão uma rede social analógica? O Rubião[5]
fingia que entendia aquela loucura, a sociedade da corte batia palmas para o
que pretensamente fora criado por Quincas Borba antes falecido. Rubião seu
herdeiro testamentário porque tinha dinheiro e prestígio, e no fim todo
mundo se abraçava na ignorância mútua porque era socialmente conveniente.
Machado sabia que a opinião pública no Brasil é uma imensa coreografia de
aparências, onde o sujeito prefere morrer de peste a confessar que não faz a
menor ideia do que está falando.
E agora nós
temos essa inteligência artificial no Judiciário, essas discussões sobre
"quem vigia os vigilantes". Vocês leram aquele artigo sobre o STF que
eu passei na semana passada? Aqueles ministros que decidiram que não precisam
seguir o código de ética de Bangalore porque estão acima do bem e do mal? Pois
bem. Quem é que protesta contra isso nas redes? É o sujeito que estudou direito
constitucional? Não! É o filósofo de bar digital que confunde processo penal
com receita de bolo, mas que tem um milhão de seguidores e grita mais alto. E,
não vamos falar aqui da questão mercurial nos rios da Amazônia e da matança dos indígenas. Também não vamos
falar na sexta roda de chope da questão
do racismo ambiental estrutural afinal não é
importante para nós filósofos de bar de esquina dissertar sobre tão
insignificante questão social. Para nós
é mais importante falar sobre as
peripécias sexuais daquele famoso
jogador estacionado no departamento médico.
(Ele apoia
os cotovelos na mesa, aproximando-se dos alunos, a fala um pouco mais pesada,
mas os olhos fixos)
Nós
democratizamos a voz pública, meus jovens. E o que fizemos com essa conquista
monumental? Entregamos a chave do hospício para os loucos mais barulhentos. A
ignorância confiante — aquela que Twain tanto temia — virou modelo de negócios.
O algoritmo não quer saber se o que você está dizendo tem base científica ou
histórica; ele quer saber se o que você postou fez o fígado do seu leitor ferver de ódio. O ódio engaja. A nuance dá
sono. E o sono não vende anúncio de sapato.
Nós estamos
vivendo sob a ditadura da broa de milho digital. Todos nós. Inclusive eu, que
amanhã cedo vou ter que colocar um terno, engolir a ressaca e fingir para
cinquenta alunos que o mundo é governado por tratados internacionais e não pelo
humor instável de três bilionários donos de redes sociais que sofrem de
complexo de Messias.
(O
professor olha para o copo vazio, bate levemente com ele na mesa e dá um
sorriso amargo)
Zé! Fecha a
conta aqui. E tragam um táxi para este velho mestre, antes que eu decida abrir
uma conta no TikTok para explicar a queda do Império Romano em formato de
dancinha. Afinal, a broa de milho não vai se pagar sozinha, não é verdade?
(O
professor dá uma última risada de escárnio, balançando a cabeça enquanto o
garçom traz a conta e uma saideira que ninguém pediu).
E querem saber qual é a piada definitiva? A
cereja do bolo de fubá dessa nossa broa de milho contemporânea?
Se vocês olharem para este manifesto indignado
que acabei de declamar para vocês, com toda essa empáfia de mestre de
geopolítica, com citações pomposas de Twain, Machado e Juvenal... a verdade é
que o pretenso autor dessa tese nem sequer se deu ao trabalho de queimar os
neurônios para escrevê-la.
Ele não abriu um livro, não folheou as Memórias
Póstumas, não buscou o ensaio original de Twain na biblioteca digital.
Nada! O nosso brilhante "pensador" contemporâneo limitou-se a abrir
uma aba no navegador, digitar três ou quatro prompts preguiçosos em uma
inteligência artificial e deixar que um algoritmo fizesse todo o trabalho de
costurar a ironia por ele.
Ele conseguiu a broa de milho dele sem precisar
sequer moer o grão! É o ápice da nossa era: o sujeito terceiriza até a própria
indignação intelectual para uma máquina e depois compartilha o resultado
posando de grande humanista crítico das redes sociais.
Nós não somos apenas os asnos que imitam; nós
somos os asnos que aprenderam a programar outros asnos de silício para fingir
que pensamos por nós.
Zé, traz logo esse táxi antes que a inteligência
artificial do meu celular descubra que eu estou falando mal dela e decida
bloquear o meu aplicativo do banco!
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direitos concedidos, ressaltando-se que a licença pode não contemplar todas as
permissões necessárias para certos usos.
Observação: Este texto foi desenvolvido com auxílio da IA – Claude Sonnet 4 da Antropic – O responsável é Ingo Dietrich Söhngen.
As imagens foram desenvolvidas pela IA Nano Banana 2.
E, cabe aqui uma pequena advertência:
O Diagnóstico de Twain no Século XXI
A leitura de "Corn-Pone Opinions" no
cenário atual revela que a internet não democratizou a verdade nem libertou o
pensamento crítico; ela apenas acelerou e industrializou a nossa tendência
biológica de sermos "criaturas de influências externas".
O diagnóstico de Twain permanece impecável. O ser
humano contemporâneo continua confundindo sentimento com pensamento. Ao
defendermos com unhas e dentes as pautas do nosso "grupo" nas caixas
de comentários, acreditamos estar exercendo nossa liberdade de expressão e
originalidade. No entanto, estamos apenas imitando os "Smiths" e os
"Jones" do nosso feed, repetindo jargões que não criamos, para
garantir nossa cota diária de aceitação social e garantir que o nosso "pão
de milho" digital continue sendo servido.
E, para aqueles que acham que não se pode escrever textos com auxílio
de IA faço remissão a uma vencedora do Prêmio Nobel de Literatura - Olga
Tocártchuc, vencedora do Nobel de Literatura de 2018, que admitiu usar um
modelo de IA (Inteligência Artificial) para ajudar em seu processo criativo. In (3505) Vencedora do Nobel de
Literatura admite usar Inteligência Artificial | LIVE CNN - YouTube. Então
aos vencedores as batatas...
[1] Mark
Twain (pseudônimo de Samuel Langhorne Clemens) foi um escritor e humorista
norte-americano, aclamado por William Faulkner como o "pai da literatura
americana". Ele revolucionou as letras mundiais ao abandonar o estilo
europeu formal, adotando a linguagem coloquial, os dialetos regionais e uma
profunda crítica social.Wikipédia. In https://pt.wikipedia.org/wiki/Mark_Twain.
[2]
O ensaio "Corn-Pone Opinions" de Mark Twain foi escrito em 1901,
embora sua publicação tenha ocorrido apenas postumamente em 1923, dentro da
coletânea Europe and Elsewhere. O texto oferece uma reflexão crítica
sobre a conformidade social e a tendência humana de seguir opiniões de rebanho.
https://www-thoughtco-com.translate.goog/corn-pone-opinions-by-mark-twain-1690231?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=sge.
[1,
2]
[3]
A encenação de sermões na pilha de lenha ocorreu em uma Hannibal sob o regime
da escravidão legalizada. Samuel Clemens trabalhou e viveu formalmente na
cidade até 1853, quando completou 17 anos e partiu para trabalhar como
tipógrafo em outras capitais.
No mesmo fragmento de suas
memórias, Twain reconta que ele e seus amigos de infância eram companheiros de
Jerry. Samuel Clemens nasceu no final de 1835 e viveu
o auge de sua infância lúdica e observadora em Hannibal, Missouri, justamente durante
a década de 1840. In chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://anth.umd.edu/sites/anth.umd.edu/files/pubs/IJHS%2017%20%283%29%20Mark%20Twain.pdf
– pesquisa em 2026-06-07
[4] O "Humanitismo de Rubião" é a apropriação ingênua e delirante da filosofia de Quincas Borba, usada pelo protagonista para mascarar a dor da rejeição de Sofia e justificar os gastos absurdos com seus exploradores sob o pretexto de "celebrar a vida". Sem capacidade para compreender o cinismo e a crueldade da teoria original, Rubião distorce o conceito ao longo de sua decadência mental, culminando no delírio de que ele próprio é o imperador Luís Napoleão. No fim, a aplicação prática de sua filosofia pessoal o transforma na maior prova viva da tese: incapaz de lutar na seleção social, ele vira o derrotado da história, deixando as "batatas" nas mãos do casal Palha.
- O Darwinismo Social: Que tentava justificar as desigualdades sociais e o imperialismo como mera "seleção natural".
- O Positivismo: Que colocava a ciência e o progresso material acima de qualquer barreira moral ou ética.
- A Hipocrisia Social: Onde os personagens usam uma fachada de civilidade, mas agem com profundo egoísmo por baixo dos panos. [1, 2, 3]

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